PUBLICIDADE PUBLICIDADE
Buscar:
100 RESPOSTAS AGENDA BIBLIOTECA COLUNAS COMER EQUILÍBRIO GENTE GRANDES TEMAS HORIZONTES MENTE ABERTA MORAR VÍDEOS

Do seu jeito

Reforme sua casa e renove sua vida

por Leandro Quintanilha

Barulho, sujeira, atraso, orçamento estourado. Quando você ouve a palavra reforma, no que pensa primeiro? Há bem pouco tempo, eu achava que essa possibilidade estava fora de cogitação na minha vida. Nada como um tijolo sobre o outro: aqui estou, no meio de uma reforma, disposto a convencer você de que reformar a casa pode ser, sim, uma experiência bacana. Porque, em geral, os transtornos são passageiros e os benefícios, duradouros. E reforma é um jeito de tornar seu espaço mais funcional, mais agradável, mais parecido com você. Mas, antes do acabamento, comecemos pela fundação: a própria vontade de reformar algo requer um olhar otimista para a vida você precisa enxergar o que não satisfaz, o que incomoda, e visualizar como o espaço pode ficar melhor.

Não, eu não vou enganá-lo. Barulho, sujeira, atraso, orçamento estourado, tudo isso tem grandes chances de acontecer, viu? Mas, com informação e alguns cuidados, os riscos diminuem bastante. E, acredite, mesmo esses transtornos podem ser para o bem. Funcionam, no mínimo, como um exercício construtivo para o controle da ansiedade. Você também aprende a desenvolver habilidades que talvez não façam parte da sua rotina, como planejar orçamentos, negociar preços e traçar cronogramas.

De um jeito ou de outro, quem reforma acaba se conhecendo melhor. Com uma prancheta na mão, você desenha sua concepção particular de um lar-doce-lar. Então, mãos à obra?

Acabo de comprar meu primeiro apartamento. A procura durou meses e acabei optando por um imóvel antigo, da década de 70, por causa do preço, do espaço e da localização. Só que os tacos estavam escuros, riscados; as paredes, cor-de-nada, cheias de marcas; e a cerâmica do banheiro, pobrezinha, quebradiça e encardida pelo tempo. Para ficar com o apê, tive de engolir a necessidade de tocar uma reforma. Mas, sabe, não demorou para que eu começasse a curtir o processo. Assim que fechei o negócio, comecei a pesquisar sobre mão-de-obra e materiais, com o entusiasmo de quem procura uma camisa nova nas vitrines. E não é preciso casa própria para fazer reforma. Basta entrar em acordo com o proprietário: você pode melhorar o espaço onde vive e descontar os gastos no aluguel.

Como trabalho em casa, numa profissão de prazos apertados, que convida ao estresse, resolvi investir em cores suaves, como marfim, bege e azul-claro. Assim, quando o mundo estiver desabando lá fora (ou dentro de mim), poderei encontrar refúgio num microcosmo pacífico, em tons serenos de baixo contraste. É assim mesmo: reforma é uma tentativa de materializar uma abstração, um sonho. O desafio é realizar esse sonho com os recursos disponíveis, pondera, sabiamente, a arquiteta Silvana Zioni, professora da Universidade Mackenzie, de São Paulo. Por isso, ensina ela, você deve escolher um arquiteto como quem opta por um determinado terapeuta é importante sentir empatia pelo profissional.

Se a reforma consiste apenas em pintura e substituição de peças e revestimentos, você pode até prescindir de um arquiteto, mas uma consultoria especializada é fundamental quando se planeja derrubar paredes e readaptar espaços. Primeiro você tem de saber o que deseja mudar, o que determina a complexidade da reforma. A partir disso, você terá uma noção melhor de que especialista (arquiteto, chefe de obras, marceneiro, pintor etc.) consultar para saber se o que deseja é viável, financeira e tecnicamente. Juntos, vocês também poderão decidir se será necessário deixar o imóvel durante as obras, e estimar eu disse estimar o tempo da reforma.

Com a sua cara

A auxiliar de enfermagem Rosangela Rodrigues, de 34 anos, sabe bem disso. Há oito anos, ela e o marido decidiram transformar uma casa térrea num sobrado. E o projeto foi desenvolvido para que eles não precisassem sair de casa durante as obras, o que lhes garantiu uma providencial economia. Moramos dez meses na cozinha, conta a sobrevivente, como quem narra uma aventura.

Quando a obra estava quase pronta, Rosangela descobriu que a vista era linda do novo telhado. Antes que os pedreiros dobrassem a esquina, ela e o marido decidiram construir um sótão. Pensa que acabou? No quintal, há um gramado provisório vai virar uma piscina. Aos poucos, a casa vai ficando parecida com a que eu desenhei na minha cabeça, diz Rosangela.

Muitas casas e apartamentos são concebidos antes da venda para um público-alvo, e acabam não atendendo exatamente as necessidades de quem vai morar no imóvel. Reformar é um meio de se customizar o lar. E, como lembra a professora Silvana, é também um jeito de atualizar as necessidades de moradia no correr das décadas. Imóveis com 30, 40, 50 anos de uso precisam ser adaptados ao modo de vida contemporâneo.

Hoje, a casa é vista como um espaço prioritário de lazer a cozinha, por exemplo, deixou de ser apenas um local de produção de alimentos para se tornar um espaço de convívio, e pode até ser integrada à sala. Os chamados computadores pessoais trouxeram o trabalho para casa e ter um escritório doméstico deixou de ser coisa de gente rica. As relações interpessoais também mudaram. Muitos dos antigos (e minúsculos) quartos de empregada foram transformados em dispensas, porque a obrigação de dormir no trabalho vem sendo abolida com a renovação dos costumes.

E, se mudam as necessidades das gerações, variam também as demandas de cada fase da vida. A funcionária pública Maria Francisca Motta, de 46 anos, reformou os quatro apartamentos em que morou ao longo da vida adulta, além da casa do sítio de um namorado. Adoro reforma, diz. Até faço fotos de antes e depois. Cada reforma acompanhou uma mudança importante na família, como a vinda de uma querida irmã para morar com ela e os filhos, há cinco anos. Nos álbuns dos Motta, o cenário das fotos muda ao passar das páginas, prova de que a moradia pode por que não? ser tão dinâmica quanto os demais aspectos da vida.

E os transtornos? Se você se lembra de que são temporários, eles não o afligem tanto, diz Maria Francisca. Numa de suas reformas, ela aguardava a instalação de uma banheira, mas a peça chegou da fábrica com o motor fixado do lado errado. Frustrada, ela solicitou a troca ao fabricante e o processo atrasou a obra por semanas. Demora, mas passa, diz ela. Minha reforma também está atrasada, porque o empreiteiro machucou o joelho no futebol, durante o fim de semana. Vai ficar de molho por dez dias. Respiração profunda, já aprendi.

Você tem de repetir como um mantra que a bagunça uma hora acaba, aconselha a jornalista Chris Campos, autora do livro e do site homônimo Casa da Chris, com dicas para melhorar e curtir o lar. Eu sei que a filosofia oriental nos ensina a manter o foco no presente. Mas, durante a reforma da sua casa em especial, se você estiver morando nela , peça licença aos sábios para permanecer com a mente no futuro. Nos momentos mais tensos, feche os olhos e imagine como vai ficar, diz Chris. Isso deve ser suficiente para baixar seus batimentos cardíacos.

Outra dica é curtir cada etapa vencida - não precisa esperar a festa de reinauguração da casa para se sentir feliz. Comemore cada resultado. Lembro o dia em que os tacos do meu apartamento ficaram prontos - lisos, brilhantes, cor-de-caramelo. Me senti com chão.

Renovar o que já existe no imóvel, a propósito, evita desperdício de tempo, dinheiro e materiais, e pode garantir um resultado mais charmoso. Cuidado com os modismos o que é a última tendência agora pode virar um clichê constrangedor amanhã. Manter certos elementos originais pode conferir autenticidade ao imóvel, afirma o arquiteto Rodrigo Queiroz, professor da Universidade de São Paulo. Reforma não precisa ser uma cirurgia plástica radical. O diálogo com o antigo é uma prova de erudição, demonstração de respeito à memória da arquitetura, diz ele.

A arquiteta Silvana lembra ainda que nossos sonhos não se realizam apenas de forma material. O espaço físico é só um cenário para o que os moradores e seus convidados farão da rotina. Oscar Niemeyer disse uma vez que o importante não é a arquitetura, é a vida. Às vezes você fica preocupado demais com o formato da janela e se esquece de que os momentos mais poéticos só precisam de um parapeito e de um vão.

Reforme-se

Aproveite as obras de sua casa para polir qualidades em você

- EMPATIA Contrate profissionais indicados por amigos, vizinhos ou pessoas de confiança. Sempre que possível, conte com a orientação de um arquiteto que escute suas necessidades.

- ORGANIZAÇÃO Faça orçamentos, reserve parte do dinheiro, estabeleça prazos. Manter-se em ordem por dentro é o melhor jeito de lidar com a bagunça que está ao redor.

- DESAPEGO Mania de limpeza não combina com reforma. Passe um paninho para tirar o excesso de pó e vá cuidar da vida.

- DISCERNIMENTO Priorize materiais de qualidade. Alguns bancos costumam oferecer financiamentos com juros mais amenos para investimento em imóveis, como reformas.

- PRECAUÇÃO Separe 20% ou 30% do orçamento para eventualidades, mas saiba que a reserva talvez não seja suficiente. Alguns problemas (graves) a gente só descobre quando derruba a parede.

- RESPEITO Avise o síndico e os vizinhos sobre a reforma e respeite os horários de silêncio em geral, antes das 8h e a partir das 18h. E mantenha as áreas comuns livres e limpas. Entulho de obra não pode ser recolhido como lixo comum: contrate uma caçamba.

- CONSIDERAÇÃO Lembre-se de que os pedreiros precisam comer e descansar ao longo do dia. Você pode pechinchar, mas o pagamento tem de ser justo. Como não há uma tabela, o jeito é conversar com o maior número de pessoas e chegar a uma média.

- EQUILÍBRIO Se você mora na obra, invente passeios para escapar da poeira. Bom momento para redescobrir o cinema, por exemplo.

- RESPONSABILIDADE Faça escolhas ecologicamente conscientes, como priorizar a iluminação natural e o consumo moderado de água. Reaproveite o que puder e doe o descarte que ainda pode ser usado por outras pessoas.

- PACIÊNCIA Calma, uma hora acaba. Depois é só curtição.

Conheça a edição do mês Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site Destaques da edição Edições anteriores Assine a revista Folheie a edição
PUBLICIDADE:
Simplifique a sua vida
DÚVIDAS EXPEDIENTE FALE CONOSCO NEWSLETTER MINHA ASSINATURA LOJA ABRIL
Editora Abril Copyright © 2009 Editora Abril S.A.
Todos os direitos reservados. All rights reserved