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Bons companheiros

Amigos se tornam vizinhos, vizinhos transformam-se em amigos. Entenda o que há de bom e ruim nessa convivência

por Roberta De Lucca | fotos Roberta Dabdab

A porta da casa da atriz Carlota Joaquina fica aberta boa parte do dia. Esse é o código para que os vizinhos saibam que podem entrar quando desejarem, seja para conversar sobre o conserto do portão, seja para chorar as mágoas de um relacionamento que acabou ou para organizar uma festa. Há sete anos morando em uma vila em São Paulo, Carlota vive em grande comunhão com os moradores próximos. Ela os conhece muito bem e sabe que pode contar com eles a qualquer momento e para qualquer coisa - algo raro atualmente. Afinal, a individualidade tomou conta da vida das pessoas e quase ninguém sabe quem mora ali ao lado.

Como tudo na vida, porém, essa maneira de morar tem vantagens e desvantagens. Por um lado, é preciso ter sutileza e sensibilidade para não azedar os relacionamentos, aprendendo a ceder e a estabelecer limites. Por outro, a convivência com amigos tem benefícios invejáveis.

Segurança e liberdade
Um ponto a favor é a segurança. Você pode até instalar alarme e cercas eletrificadas, mas nada melhor que ter um conhecido atento a qualquer movimento estranho na sua casa. Amigos há 15 anos, o arquiteto Ararê Sennes e o publicitário Flávio da Costa Viellas têm esse privilégio. Num estreito terreno, Ararê projetou um prédio com dois apartamentos onde eles moram há quase um ano. "Um de nós sempre está aqui nos fins de semana. O prédio nunca está vazio e quem fica vigia o apartamento do outro", diz Flávio.

O psiquiatra Eliseu Labigalini Jr. também desfruta da mordomia de ter vizinhos que olham sua casa, mas isso, para ele, é mera comodidade. Do que o médico gosta mesmo é da liberdade que seus filhos ganharam quando ele, a mulher e dois casais de amigos compraram terrenos lado a lado em um condomínio nas proximidades de Cotia, na Grande São Paulo. As três casas não são separadas por muros. A única delimitação é uma cerca comum ao terreno. "Para as crianças é ótimo. Elas brincam e vão de um lugar a outro sem perigo e nós ficamos tranqüilos porque sabemos que elas estão por perto", explica ele.

Mão na roda
Morar tão perto assim de um amigo tem outros aspectos positivos. Por exemplo: você pode sair de férias sossegado porque seu vizinho, ou melhor, seu amigo vai regar suas plantas, pegar sua correspondência e até abrir as janelas para arejar a sala. Quando faltar aquele fatídico ovo para fazer um bolo, basta bater na porta ao lado. Dependendo do tipo de relação que vocês tiverem, seu amigo pode até emprestar o carro para você ir trabalhar, como fez o vizinho de Eliseu quando o carro dele estava na oficina.

As irmãs Márcia e Zenaide Tiepo Scala não sabem o que é viver sem essas comodidades. Quando pequenas, a casa em que moravam dividia o terreno com as residências dos tios e avós. Acostumaram-se ao convívio familiar e, quando construíram suas próprias famílias, reproduziram esse modo comunitário de viver. Hoje, moram em casas coladas que se comunicam por uma passagem no muro do quintal. Não bastasse tanta união, tem ainda um detalhe: seus maridos são primos entre si. Nove crianças, dos dois casais, foram criadas nesse vaivém diário. "Para facilitar, todos estudavam na mesma escola e freqüentavam o mesmo clube", diz Márcia. Cada dia uma levava as crianças ao colégio. E, sempre que alguém ia ao mercado, oferecia uma carona ou trazia uma encomenda.

Para o chef Sérgio Luís de Almeida Barbosa, que mora ao lado da casa de Carlota, a maior vantagem de ter amigos na próxima porta é ter com quem conversar e pedir socorro. "Tive um sério problema pessoal e meus vizinhos, que hoje são amigos, me ajudaram muito. Vejo as pessoas aqui como sendo da minha família."

Confiança e organização
A convivência também fortalece a confiança. Na época em que os apartamentos de Ararê Sennes e Flávio Viellas estavam sendo construídos, o arquiteto ficou encarregado de cuidar dos custos da obra. "Abrimos uma conta no banco e depositávamos o dinheiro. Nunca questionei os gastos. Sempre confiei no Ararê", afirma Flávio. "A conta existe até hoje e de lá sai o dinheiro para pagar impostos, água, zelador, faxineira e produtos de limpeza. Também é nela que estamos investindo para fazer o paisagismo e a área de lazer", diz Ararê.

Na vila onde mora Carlota, os moradores das 16 casinhas também conseguem viver sem regras oficiais de convivência. Lá não há estatuto nem síndico. É tudo no fio do bigode, ou seja, na confiança e no compromisso. Quando é necessário fazer alguma obra conjunta, os moradores se reúnem para angariar o dinheiro. "Tentamos criar um fundo de reserva mas não deu certo. Nem todos colaboravam e quem colaborava não contribuía sempre", conta a gerontóloga Beatriz Cunha Perez.

Outra opção é criar regras de convívio que todos aceitem. Em Caucaia do Alto, cidadezinha a 50 quilômetros de São Paulo, o arquiteto José Augusto Conceição criou um condomínio e atraiu para lá 17 amigos e parentes. Mas a convivência entre os camaradas é mediada por um estatuto, um caseiro e um administrador. Graças a essa organização, todo mundo paga uma taxa de condomínio. Com esse dinheiro, além de pagar a conservação da propriedade, eles estão construindo uma área de lazer. "A vantagem desse esquema é que se eu tivesse um sítio sozinho os custos de manutenção seriam muito altos e aqui esses valores são rateados", diz José Augusto, abrindo o horizonte para quem sonha ter uma casinha no campo e sempre esbarra na questão dos custos.

Mas as regras não vão evitar frustrações e mal-entendidos. Mesmo com a vantagem de gastar menos de 500 reais por mês no condomínio e a proximidade de São Paulo, o arquiteto ainda não pretende se mudar para lá. "Por enquanto, meu trabalho e o de minha mulher nos mantêm na cidade, mas passo quase metade da semana no sítio", afirma José Augusto. A única pessoa que mora hoje no condomínio é a administradora aposentada Maria Pardini. "Adoro isso aqui, mas às vezes me sinto sozinha. Imaginei que mais pessoas fossem se transferir para cá", afirma. Ela diz que, se tivesse ficado claro que nem todos se mudariam para a propriedade, teria agido de outra maneira.

O que aconteceu com Maria ilustra o quanto é importante conversar com muita transparência antes de topar um negócio dessa natureza. Basta olhar para ela para saber que Maria é dinâmica e gosta de ter contato com outras pessoas. No final das contas, ela sente falta de alguém para bater papo e dividir um bule de chá.

Traçando limites
Enfim, intimidade é bom, mas dá trabalho. Quando tudo fica muito íntimo, esbarra-se naquele sábio princípio bíblico de que a sua liberdade termina onde começa a do outro. Por isso é preciso ter habilidade para demarcar seu território e sensibilidade para entender os sinais dos vizinhos.

Mesmo com o muro aberto, as irmãs Márcia e Zenaide Scala criaram regras para seus filhos: na hora de estudar, tomar banho, almoçar e jantar era cada um na sua casa. "Apesar do entra-e-sai, sempre tivemos vidas independentes", diz Zenaide. A convivência entre Eliseu Labigalini Jr. e seus amigos funciona igual. Se um for visitar o outro, não entra sem tocar a campainha ou até telefona para saber se pode ir no vizinho. "É a nossa maneira de respeitar a privacidade do outro."

Já na vila em que vive Carlota a conduta é bem diferente. O código para o passe livre é a porta. Se estiver fechada, o morador pede sossego. Se estiver aberta, pode entrar sem bater. Para boa parte dos moradores, essa conduta não é invasiva. Carlota garante que o segredo é estar atento para perceber quem está ou não receptivo. "Só invadem a sua privacidade se você deixar", enfatiza Sergio Barbosa. Mesmo assim, às vezes essa intimidade sai porta afora e entra pela janela dos outros.

A maioria dos moradores é festeira e vira e mexe tem um agito na vila. Só que nem todo mundo gosta, porque muitos desses encontros atingem decibéis mais elevados e acabam incomodando algumas pessoas - teve gente que se mudou de lá por causa do barulho. "Acho que falta um pouco de ponderação em algumas coisas. Deveríamos ser avisados com mais antecedência quando vai haver festa e elas poderiam acontecer só nos finais de semana", afirma Beatriz Cunha Perez, também moradora da vila.

Delicadeza e cuidados
Outro ponto que deve ser levado em conta é saber usar as palavras. Flávio Viellas, que nunca tinha morado sozinho, aprendeu rapidinho. "Agora eu meço mais as palavras. Bater boca com seu melhor amigo é muito diferente de discutir com alguém na reunião do prédio. No dia seguinte, você não pode simplesmente dizer 'olá' para o amigo, como faria com um vizinho qualquer."

Para Eliseu, o segredo da convivência harmônica é a delicadeza. "Qualquer relação tem que ter delicadeza. Quando o vizinho é seu amigo, o cuidado é ainda maior, para preservar a amizade."

Assim como as amizades, a boa vizinhança também precisa ser cultivada, e alguns rituais ajudam a manter a camaradagem viva e viçosa. Refeições conjuntas, por exemplo. Símbolo de partilha e união, a comida cria um ambiente propício para a comunhão. Foi trocando receitas que Carlota conheceu seus vizinhos, estreitou relações e criou laços, ganhando amigos verdadeiros. Também é ao redor de uma mesa que Eliseu, sua família e seus amigos-vizinhos se reúnem a cada 15 dias. O cardápio varia, mas os pratos principais são sempre os mesmos: boa conversa e a alegria de estar entre gente querida.

Dicas para a boa vizinhança
1. Não deixe que pequenos mal-entendidos do dia-a-dia se acumulem. Se houver algo incomodando em relação ao seu amigo/vizinho, converse logo com ele. Uma coisa não dita, ou mal dita, pode atrapalhar a relação.

2. Nem sempre quem mora ao lado quer participar de uma reuniãozinha de última hora ou de um animado jantar. Tente manter certo silêncio e coloque-se no lugar daquele amigo que vai trabalhar cedo na manhã seguinte.

3. Às vezes é bom contar com a ajuda de um estatuto. Ele determina deveres e direitos e pode criar alternativas interessantes, como um fundo de reserva para reformas, manutenção e até a organização de festas.

Teste sua tolerância
Aproximar-se da vizinhança cria situações delicadas. Antes de dividir sua intimidade, pense sobre qual seria sua reação nos casos descritos abaixo.

Seu amigo freqüentemente faz festinhas e o barulho incomoda você.

Você gosta de música para relaxar e seu amigo adora rock, em um volume que dá para ouvir da sua casa.

Seu amigo pega alguma coisa, como um sabonete ou vidro de maionese, quando você não está em casa.

No domingo, seu amigo faz um churrasco e deixa a grelha suja e o carvão no quintal, que é de uso comum.

Ele não ajuda a conservar o jardim.

Ele não devolve a travessa que você levou na casa dele com a sobremesa num jantar.

Ele aparece na sua casa sem avisar, mas você quer ficar só.

Ele aparece quase toda noite para assistir ao telejornal na sua companhia.

Ele pede para você cuidar do gato ou cachorro no fim de semana.

Você tem que dizer não a ele.

Se na maioria das situações acima você achou que seria difícil resolver o problema sem se irritar bastante, pense melhor antes de morar junto ou bem próximo de um amigo. Talvez você não tenha o perfil adequado para essa convivência.

Uma boa solução é criar regras claras de convivência. Mas, como você deve ter notado, algumas situações não podem ser previstas. Aí, só sendo amigo, mesmo.

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