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Na sua casa existe algum móvel que, além de decorar, tenha sido comprado para ajudar uma criança com câncer, uma pessoa com necessidades especiais ou um deficiente visual? Na minha não tem. Mas, se eu tivesse pensado nisso antes, a mesa antiga de madeira maciça que coloquei na minha sala poderia trazer esse toque do bem em sua história. Em vez de comprar o móvel na feira de antiguidades do bairro paulistano do Bixiga, eu poderia ter ido a um bazar de uma entidade beneficente e encontrado uma peça similar, ou até mais bacana, e com duas vantagens: provavelmente eu teria gasto menos e ao assinar o cheque estaria doando o valor da compra para pessoas que precisam de ajuda. Vai dizer que não é unir o útil ao agradável?
Comprar um móvel usado nesses locais pode ser um negócio da China. Afinal, organizar bazares de usados e seminovos com peças a preços baixos (até irrisórios) foi o caminho encontrado por muitas entidades assistenciais para transformar em dinheiro os donativos que recebem. O que parece inútil para uns serve para outros e ao final de um mês se converte numa boa receita para a associação auxiliar na inclusão social de quem precisa, cuidar da saúde de doentes, alfabetizar crianças e adultos ou ensinar um cego a ler. "Nosso objetivo é comercializar barato para arrecadar o quanto pudermos para a fundação", diz Sandra Marchi, coordenadora do bazar da Fundação Dorina Nowill Para Cegos, em São Paulo.
Nem adianta olhar no para saber mais, ao final deste texto, para pegar o endereço e ir atrás da cadeira, porque certamente ela já foi vendida. Em vez de se decepcionar, aprenda a primeira lição sobre como garimpar móveis usados: quando gostar de algo, compre na hora, porque amanhã dificilmente vai estar lá. "Existem pessoas que vêm aqui todos os dias e até duas vezes por dia", afirma Rita de Cássia Bettega, gerente do Samburá, bazar do Lar Escola São Francisco, um dos mais tradicionais de São Paulo. Rita conta que os maiores compradores são decoradores, antiquários e donos de lojas e de barracas em feiras de móveis e peças antigas. Embora seja fácil perceber que a concorrência é grande, mesmo que você não se transforme num "rato de bazar" são boas as chances de encontrar peças de qualidade, feitas com madeiras nobres como imbuia, jatobá, mogno e marfim, por exemplo.
Todos os dias as entidades retiram doações e por isso há novas peças à venda na mesma proporção. Em algumas associações, como Lar Escola São Francisco, Unibes e Casas André Luiz, os itens com chances de serem vendidos por um valor melhor (mas nada exorbitante, que fique bem claro) recebem tratamento VIP: uma lixadinha, um pouco de cera e até descupinização, se o reparo não sair caro. "Só mexemos nas peças que podem ganhar mais valor de venda", afirma Poli Gorodetchi, do bazar da Unibes - União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social. Ali é possível encontrar itens de época bem conservados, como um móvel original art déco (estilo de mobiliário surgido nos anos 20 que não tem os excessos de rebuscados do mobiliário do século 19) por 700 reais - uma barganha.
O preço é determinado por um antiquário que avalia voluntariamente as peças antigas. O mesmo acontece no Bazar Hope, que conta com a ajuda de um antiquário, parente de um voluntário. Em outras entidades, entre elas o Samburá, freqüentado por decoradores como Sig Bergamin, um dos mais celebrados do país justamente por seu talento em criar ambientes que misturam peças de estilos diferentes na medida certa, a análise empírica do móvel conta com a experiência de quem trabalha no ramo há anos. "Nosso marceneiro determina o valor do item por sua madeira, design e época. Em alguns casos, chamamos um profissional para examinar a peça", diz Rita Bettega. "Nos cinco Mercatudo das Casas André Luiz, os preços variam entre 50% e 60% do valor de mercado", afirma Jorge Alexandre Lima, coordenador da rede, que vende todo tipo de móveis, boa parte bem popular. Mas no meio deles há armários e mesas dos anos 50 e 60 imperdíveis.
Olhar uma coisa e vê-la transformada em outra é liberar sua criatividade sem medo de errar. Na Casa Cor da Rua, espaço mantido pela Organização de Auxílio Fraterno (OAF), de São Paulo, o lixo vira móvel e peça de decoração com a maior facilidade. Os 21 adolescentes coordenados pela irmã Ivete de Jesus aprendem a transformar encostos de cadeiras e cabides antigos de boa madeira em mancebos transados que já foram presenteados a gente importante, como o presidente Lula. Com o pínus-canadense de palets (estruturas de madeira usadas para armazenar carga), a irmã Ivete bolou banquetas inspiradas nos anos 50. "Gosto de decoração e pego referências de revistas. Tudo o que fazemos aqui sai da nossa cabeça. Não trabalhamos com orientação de designers de móveis", diz, acrescentando que algumas peças estão sendo exportadas para a Itália.
O mais legal nesse trabalho é que o material é doado por empresas que descartam seu lixo e principalmente por catadores de rua que sabem o quanto é importante reutilizar o que seria destinado aos aterros. E você também entra nessa cadeia quando compra um móvel usado ou da OAF (que é apenas uma entre centenas de entidades similares espalhadas pelo Brasil). Quanto mais consumimos esses produtos, mais colaboramos para a preservação dos recursos naturais.
Deixamos de comprar uma peça nova - que resulta na derrubada de árvores - e evitamos que móveis velhos virem lixo. Sem falar que adquirimos bens de excelente qualidade e humanizamos ainda mais a nossa casa. "As pessoas não podem viver num lugar com cara de show room. A morada deve ser agradável e resgatar memórias afetivas. Quando adquirimos uma poltrona dos anos 60 lembramos de nossos pais, da nossa infância", afirma Nick Santiago. Mestre na arte de buscar peças em qualquer estado em bazares e lojas de móveis usados, ele coloca mais lenha na fogueira para inspirar quem está quase convencido de que vale a pena investir num móvel de segunda mão. Nick defende que, ao participar de todo esse processo, despertamos para a possibilidade de transformar nossa casa cada vez mais no melhor lugar para se estar.
1. Sempre vá ao bazar pela manhã. Em geral é quando as peças que chegaram no dia anterior são colocadas à venda. Para garantir a viagem, informe-se com o pessoal do bazar quanto à periodicidade de entrada dos produtos na loja.
2. Cuidado para não se empolgar com as ofertas tentadoras. Pergunte-se se você realmente precisa daquele móvel, se ele cabe na sua casa e se combina com as outras peças.
3. Gostou da cadeira? Então veja se ela está firme ou com a estrutura bamba. Caso esteja "jogando" muito, às vezes requer um serviço de marcenaria mais trabalhoso. O segundo passo é virar a cadeira, sofá ou poltrona. Se a parte inferior estiver muito estragada - com molas quebradas, madeira podre ou infestada de cupins - não vale a pena.
4. Cupim não determina a desistência da compra. Se o móvel não estiver tomado pelos insetos e tiver bom preço, vale a pena comprar e tratar a madeira com produto especial.
5. Às vezes aquele pé de cadeira que está faltando vai encarecer demais o preço final do móvel após a restauração. Pense bem antes de comprar.
6. Pechinche o preço, principalmente dos móveis estofados. Quanto mais velho o tecido, mais poder de barganha você terá.
7. Além dos bazares, vá a lojas de móveis usados de bairro. São baratas e têm sempre boas ofertas. O mesmo vale para feiras de móveis usados e antiguidades.
8. Arrisque-se a colocar a mão na massa para recuperar uma cadeira ou mesa. Tirar as camadas de tinta com solvente e lixa não é tão difícil e tampouco passar uma cera para dar acabamento. É uma boa chance para usar sua criatividade.
9. Quando olhar para um móvel, veja se ele pode ter outra função na sua casa. Um baú velho serve como mesa de apoio. Com uma nova pintura, um armário antigo de consultório médico de ferro pode ser colocado na cozinha. Uma mesa pequena pode substituir um criado-mudo tradicional. Um cesto de palha se transforma em luminária.
10. Quanto mais freqüentar bazares, mais você se acostumará a ver as peças que são boas e valem ser compradas. É uma questão de treino.
• Ajuda Brasil, www.ajudabrasil.org
• Bazar Hope
Rua Joaquim Távora, 1426, Vila Mariana, São Paulo
fone: (11) 5084-7111
www.hope.org.br
Casa Cor da Rua
Rua dos Estudantes, 483, Liberdade, São Paulo
fone: (11) 3272-9724
Casas André Luiz, www.andreluiz.org.br
Fundação Dorina Nowill
Rua Doutor Diogo de Faria, 558, Vila Mariana, São Paulo
fone: (11) 5087-0999
www.fundacaodorina.org.br
Bazar Samburá - Lar Escola São Francisco
Rua França Pinto, 783, Vila Mariana, São Paulo
Fone: (11) 5579-4633
www.lesf.org.br
Le Mocó
Rua Aureliano Coutinho, 278, loja 3, São Paulo
fone: (11) 3662-4651
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