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Prédio velho, casa nova

Quem escolhe um edifício antigo para morar ganha um apartamento maior, mais barato e mais bem localizado

por Mariana Lacerda | fotos André Spinola e Castro

Na Vila Pompéia, na cidade de São Paulo, o lugar onde escrevo este texto é um apartamento construído no final dos anos 50. Não é enorme. A área construída tem quase 100 metros quadrados. Mas tenho duas varandas, uma em cada quarto, e em ambas uma bela vista para a cidade. O banheiro, único, tem uma banheira da época. E o pé-direito, distância entre o piso e o teto, é alto - assim eu tenho mais luz e circulação de ar na minha morada.

Mas não sou só eu e os meus vizinhos que nos beneficiamos da resistência desse velho edifício. Pode parecer exagero, mas São Paulo inteira ganha. Todo mundo sabe que uma cidade é mais aconchegante e humana se mantiver bem conservados seus prédios antigos. Primeiro porque as construções antigas se comunicam de forma singular com a memória dos habitantes. Depois porque também com os imóveis vale aquele ditado: hoje não se fazem mais como antigamente. Os prédios antigos são em geral mais amplos, iluminados e mais baratos que os novos edifícios.

Feitos para durar
Os primeiros prédios apareceram nas cidades brasileiras em meados da década de 20 (em 1930, São Paulo tinha entre 20 e 30 edifícios para uso exclusivamente habitacional). Nasceram com espaços amplos, voltados para o sol e feitos para durar, com acabamentos sofisticados, como ladrilhos hidráulicos e azulejos especiais no banheiro. Esse ar de conforto e mesmo luxo tem explicação: morar em um apartamento daquela época deveria ser melhor ou igual que morar em uma casa.

É que, ao contrário do que aconteceu na Europa, onde os apartamentos surgiram para atender a uma demanda de moradia da população de baixa renda, aqui foi uma questão de status da classe média. "Para que o apartamento fosse bom, teria que ter espaços similares ao palacete, à casa grande", diz o arquiteto Carlos Lemos, professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo. Ter espaço permite arranjos decorativos conforme o gosto do morador. Em outras palavras, com espaço é possível criar e recriar a morada, o que dá mais conforto.

Aos poucos, a indústria da construção percebeu a vantagem de construir apartamentos com áreas úteis menores para obter mais unidades por edifício, que também cresceu em altura. Resultado: tudo foi ficando apertadinho. O detalhe é que as famílias brasileiras não abriram mão dos itens do imóvel, e os apartamentos, mesmo pequenos, mantiveram o número de quartos, uma ou duas salas, áreas de serviços e até dependência de empregada. "Tudo ficou menor. E diminuíram as possibilidades de dispor o mobiliário de forma confortável", diz Carlos Lemos. Eis aí a primeira vantagem de se morar em prédios mais velhos: são mais espaçosos. A segunda é que, por conta de seus materiais de melhor qualidade, são mais charmosos também.

E morar em prédios antigos pode sair bem mais em conta. Sim, porque seu valor de custo de construção já foi pago pelos primeiros moradores, e, em geral, demandam menos recursos energéticos - e, por isso mesmo, têm impacto ambiental menor. Além do mais, conforme a cidade, são desvalorizados pelo mercado imobiliário - ou seja, custam menos.

O começo
Esses são lugares muito especiais, porque ali estão guardados, bem ou mal preservados, seus marcos históricos - os primeiros prédios, bibliotecas, mercados públicos etc. Mais que isso, nesse espaço se condensa a multiplicidade da metrópole, seus diversos tempos, representados em variados tipos de arquiteturas.

No centro estão guardados também muitos dos prédios históricos de uma cidade, construídos para se morar. São considerados históricos porque "remetem àquilo de uma época que foi e não é mais, àquilo que jamais pode ser reproduzido", diz o arquiteto e urbanista Silvio Zancheti, professor do Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada (Ceci/UFPE), no Recife.

De uma maneira geral, os centros das cidades perderam seus moradores ao longo do tempo. "Por conta da poluição, do barulho, dos engarrafamentos e mesmo problemas de segurança", diz a arquiteta e urbanista Jupira Gomes de Mendonça, professora da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte. Sem seus moradores, fica difícil manter com vida os centros das cidades. Daí seu esvaziamento progressivo. A tal ponto que prefeituras de cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Recife mantêm em seus programas de revitalização dos sítios históricos iniciativas que prevêem a atração de seus moradores. Parece que finalmente se compreendeu o óbvio, que é impossível preservar qualquer parte da cidade se nela não estiverem presentes aqueles que a tornam viva: seus habitantes.

O resultado é que, pouco a pouco, estão sendo reocupados os privilegiados prédios centrais. Seus moradores são gente como o documentarista Sérgio Rozemblit, que comprou um apartamento no Edifício Eiffel, debruçado sobre a Praça da República, no coração de São Paulo. O desenho de Oscar Niemeyer, o espaço de 140 metros quadrados divididos em um dúplex e "um jardim como a Praça da República" foram os motivos que fizeram Sérgio, casado e prestes a ser pai, a escolher o Eiffel, um patrimônio tombado, para viver. "Além do fato de eu estar muito perto da vida tal qual ela é. O centro reúne um pouco de tudo, todos os mais variados tipos de pessoas. E isso me interessa", diz Sérgio.

A casa é uma cidade
Desvantagens? Sim, tem. "O mal dos prédios antigos é aquele que inevitavelmente não resulta senão da idade - um mal que existe em tudo que é antigo e se deteriora", diz a urbanista norte-americana Jane Jacobs, em seu livro Morte e Vida de Grandes Cidades. E, como tudo que deteriora, carece de maiores cuidados. Prédios mais velhos, por exemplo, foram dimensionados para suportar uma capacidade de carga energética que não é mais a mesma que precisamos hoje para fazer funcionar nossos computadores, DVDs, microondas... A rede hidráulica, antigamente de ferro, também dificilmente funciona bem. Por isso mesmo, ao optar em morar em prédios antigos, é importante checar esses itens e até planejar com os demais moradores a troca das estruturas de passagem de água e energia.

Também existem vantagens em se morar nos prédios mais velhinhos, não históricos, é verdade, mas que igualmente são amplos e custam menos. Veja bem: como moro num prédio baixinho, com dois pavimentos apenas, não é necessário elevador. E nem porteiro. Basta alguém anunciar pelo interfone sua chegada e eu mesma tenho o prazer de, lá embaixo, abrir a porta. Resultado: condomínio mais barato.

Essas são as vantagens que os moradores de um conjunto de prédios no bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo, tentam preservar. Construídos na década de 40, os 30 predinhos de três pavimentos se viram, aos poucos, ameaçados pela avançada especulação imobiliária. "Entramos com o pedido de tombamento do conjunto, já aceito pela prefeitura", diz o arquiteta Yvone Mautner, moradora do local.

Não é somente a garantia de boa morada que desejam os habitantes de Pinheiros. Também conta a vida que se estabelece nos arredores desses prédios mais velhos, o contato entre os moradores, que só existe pela diversidade de tipos de construções que um bairro reúne, de casas aos prédios, dos prédios altos e baixos, dos velhos aos novos.

Veja bem: se uma área tiver apenas prédios novos, irá concentrar somente as pessoas que podem pagar pelos elevados preços de suas construções. "Assim como haverá comerciantes por perto que, igualmente, apenas vão poder estar ali se puderem arcar com os custos altos que aqueles novos moradores estabeleceram", diz o urbanista Cândido Malta, professor de planejamento urbano da FAU/USP.

O que acontece com a falta de diversidade num bairro é o afastamento de pessoas como seu Wagner, tapeceiro instalado em uma garagem próxima à minha casa. Com a chegada de prédios luxuosos nas redondezas, seus custos ficaram muito altos e ele teve que fechar as portas. Os empreendimentos imobiliários me tiraram um amigo.

Por fim, morar em prédios antigos é também manter sólida, em tijolos e telhas, a memória dos habitantes de uma cidade. Nós todos sabemos disso. Você mesmo deve ter um lugar onde passou momentos na infância ou na juventude que continua semelhante ao que era na época e que, só de visitá-lo, faz viver as emoções da época. Em sua biografia Viver Para Contar, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, Prêmio Nobel de Literatura, diz que a história narrada em sua obra-prima, Cem Anos de Solidão, foi idealizada em sua primeira visita às ruas de sua cidade natal, à casa onde viveu boa parte de sua infância, uma visita em que reviveu as emoções de menino. Ao contrário, quando vemos descaracterizada a casa em que vivemos a infância, nos sentimos levemente perdidos no tempo. Uma cidade, em seus edifícios antigos, significa isso: o acúmulo, a sobreposição de histórias que precisam ser narradas, a minha, a sua, a do Sergio, a da Yvone, a do seu Wagner, a de todos nós.

Para saber mais
LIVROS
Morte e Vida de Grandes Cidades, Jane Jacobs, Martins Fontes, 2001
A Imagem da Cidade, Kevin Lynch, Martins Fontes, 1997
Caminhos da Arquitetura, João Batista Vilanova Artigas, Cosac & Naify, 2004
Depoimento de uma Geração - Arquitetura Moderna Brasileira, Alberto Xavier (org.), Cosac & Naify, 2003
Reivente seu Bairro, Candido Malta Campos Filho, Editora 34, 2004
Oh de Casa, Gilberto Freyre, Artenova, 1979
O Edifício, Will Eisner, Abril Jovem
Viver para Contar, Gabriel García Márquez, Record, 2003

SITES
Viva o Centro - www.vivaocentro.com.br
Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada - http://www.ceci-br.org/novo/www/site/

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