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Dividir para somar

A arte de viver na mesma casa com outros mora no detalhe

por Alessandro Meiguins

Talita se mudou sem ao menos assinar o contrato do aluguel, ansiosa para ter seu próprio espaço. Levou consigo apenas uma mochila e um colchonete.Com sua amiga Lu, mais dois gatinhos adotados na rua, passou por todo tipo de entrevero banho no cano, quartos sem luz, falta de fogão para deixar a casinha, alugada em uma vila, ajeitada e charmosa como ela é hoje. Foi um sonho até que um dia elas brigaram, e brigaram feio.

Melina gosta mesmo é das surpresas. Bem naqueles dias em que acorda cansada de tanto trabalhar, e já correndo atrasada para outro dia puxado, o cheirinho de café fresco invade seu quarto.Nessas horas, se sente na casa da mãe.Mas quem já, milagrosamente, pôs toda uma mesa de café da manhã foi a Patricia, que mora com ela há quatro meses, no apartamento arejado de prédio antigo. As duas dividem tudo que podem. Pagar as contas, fazer as compras, cozinhar, falar da vida e chorar as pitangas.

Xavier teve dificuldades em se adaptar ao jeito brasileiro. Parisiense, esperava ordem e jantares soberbos todas as noites. Encontrou todo tipo de bagunça nas muitas casas em que viveu por aqui. E, como na maioria delas seus colegas eram jovens atarefados e com poucos recursos, à noite só lanches rápidos ou pizzas baratas. Assim mesmo, Xavier tomou gosto. Pela informalidade, pela música, pelas baladas coletivas. Descobriu grandes amigos. Mas não se aquieta.Vez ou outra muda, experimentando o viver.

Talita,Melina e Xavier nunca moraram juntos. Tiveram, sim, casa com mais de 30 pessoas diferentes, em muitos endereços. Fizeram amigos, ganharam irmãos, brigaram, romperam de vez, pularam para outra. Como todos que saem da casa dos pais em busca do seu próprio espaço, penam para encontrar a fórmula que possa fazer da casa um canto de paz e não uma zona de guerra. Sim, é uma questão cheia de sutilezas.Vamos lá, vire a página, que, dividindo este assunto, a gente percorre todos os cômodos dessa história.

Na despensa da cozinha

Imagine você chegando do trabalho ao seu novo lar, doce lar, que você montou há pouco (e que tem comentado com todo mundo, criando aquela expectativa). Leva um amigo, quer mostrar tudo, ele quer ver cada detalhe. Quando entra, ahhhh... Pares de tênis jogados no corredor, CDs caídos sobre o som, toalha molhada sobre a mesa, roupa para tudo que é lado.Na pia, restos de comida, panelas sujas, louça tão emporcalhada que não tem nem um copo limpo para beber água. Tudo isso e você só passou um dia fora de casa. E lá vão vocês tomar um suco, só que na padaria da esquina. Inimaginável? Pois saiba que todo mundo que dividiu uma casa já passou por algo semelhante (ou pior). Duro era quando ligavam a máquina de lavar roupa no meio da madrugada, conta a publicitária Patrícia Barcelos. Quando morou em Londres, a gaúcha dividiu sua casa com oito pessoas.Muitas delas só podiam cuidar dos seus afazeres domésticos tarde da noite.Viviam brigando por causa das pilhas de louça caindo da pia, e por barulheiras eventuais que acordavam alguém.Para a convivência dar certo, é preciso criar o comum e guardar o particular, diz Norma Lacerda, arquiteta e urbanista.Valem as famosas regras da convivência, como aquela que diz que a sua liberdade termina quando começa a do outro. Ao dividir um lugar, você precisa abrir mão um pouco dos seus costumes,observar o outro e criar hábitos que auxiliem a vida, e não atrapalhem, comenta a urbanista, que faz em seus projetos casas com amplos espaços comuns, para incentivar a convivência.

Esse pensar no outro vale, e muito, para a comida que está na geladeira. Alguns lugares adotam o modelo cada um com sua prateleira, e aí a regra é não mexer na comida do outro. E, se pegar algo, repor o mais rápido possível. Mas existe um porém nisso: tem que ser um produto bem parecido, conta o administrador de empresas Xavier Rousset. Na faculdade, morei com uma pessoa que ganhava bem mais do que eu. Quando eu ia repor um queijo, por exemplo, ele sempre reclamava que a marca não era boa, diz o francês. Por outro lado, para fugir do individualismo e do preciosismo, tem gente que divide todas as compras. Ou que alterna a feira, cada um de uma vez enchendo o carrinho. Se isso pode parecer mais justo, bem, pêlo se acha em qualquer ovo. Nesse caso, vale adotar o bom senso na hora do lanche: não vá tomar todos os Yakults de uma vez! E, sempre que possível, use uma pitada de generosidade e coloque mais água no feijão.

No sofá da sala

Hum, é verdade. Parece que essa matéria só está falando de detalhes sem importância (quem é que vai brigar tanto por uma ou outra banana que sumiu do cacho?).Mas foi exatamente disso que todos os entrevistados se queixaram: os detalhes é que dificultam tudo. Foi por isso, aliás, que a chef e nutricionista Talita Cubero Maia brigou com sua amiga Lu. O problema é que, para uma não incomodar a outra, nunca reclamávamos do cabelo no ralo ou das coisas fora do lugar. Quase um ano se passou para tentarmos, em uma conversa, abrir o jogo e mudar nossas rotinas.Mas éramos mimadas, mandonas. Foi uma explosão, uma briga feia,e ficamos morando juntas sem nos falar por uns dois meses, conta Talita. De certa forma, morar junto com alguém lembra um namoro, ou mesmo um casamento.Quem,no início da relação, gosta de ficar impondo limites ou dizendo isso eu não gosto? Mas a máscara de tolerância universal joga, a longo prazo, contra qualquer tipo de relação, e o melhor mesmo é deixá-la cair logo. Dar toques na hora certa, com amorosidade e sabedoria, sempre ajuda, diz a monja Coen. Uma conversa sobre hábitos com alguém que você não conhece pode ser muito interessante. Ajuda a ver o mundo de outra forma e, com isso, ajuda a mudar a si mesmo. Não precisa ser difícil conversar, pode ser até bastante divertido, complementa a monja.

Ao conversar, a intimidade entre os moradores vai aumentar. Mas isso, essa tal de intimidade, não precisa ser algo exagerado. Se vale, e muito, falar sobre as questões diárias, é preciso parcimônia para tentar saber mais da vida do outro. Se nem com todos os amigos eu me sinto à vontade para falar da família, imagine com colegas de moradia, comenta o artista gráfico campineiro Gustavo Morais. Agora, também é impossível ficar à vontade com alguém que você não conhece nem um pouco.Assim, ir contando aos poucos, um para o outro, a história da sua vida, faz parte.O importante é ninguém tentar te sabatinar no primeiro dia, diz. Claro, ninguém quer morar com um estranho, e muito menos com alguém que saiba de todos os seus pontos fortes e fracos (e até dá uma de mãe e distribui broncas em você pelas suas últimas traquinagens).

Na parede do quarto

Mas, inevitavelmente,muitas vezes quem mora com você acaba conhecendo-o melhor do que você mesmo e vice-versa. Porque é mais fácil observar o outro, sacar os gestos, decifrar os humores. E também os defeitos.Mas aí é com você.Porque, se é fácil cutucar as feridas alheias, talvez seja mais produtivo procurar em si a parte pior da relação. Fico muito preocupada em tentar não incomodar, principalmente porque sou muito aérea, desligada, conta a cantora Melina Anthis. Ficar de olho em si mesmo talvez seja a melhor fórmula para garantir o respeito ao outro e ao seu espaço pessoal. Se morar junto pode ser esse grande exercício de atenção e crescimento interno, vale ressaltar que também pode ser um grande momento para relaxar e assumir sua humanidade, do jeitinho que ela é. Olha, simplesmente dá para ouvir tudo que acontece no quarto ao lado. Ou no banheiro. Nessa hora a gente vê que todo mundo é igual. Aí, se até nesse momento você está numa boa, então a relação corre muito bem, muito bem mesmo, conta Xavier.

Xavier morou um bom tempo com Jefferson, mais conhecido por Jeff. Cheio de amigos, Jeff um dia conheceu Patricia, que mora com Melina, em uma festa. É que os dois conhecem Daniel, há anos vizinho de Talita.Melina já ouviu falar muito de Daniel, amigo de uma grande amiga, mas ainda não o conhece pessoalmente. Daniel, por sua vez, também já ouviu falar muito de Xavier, pelas conversas dos amigos. Não tão distantes, pode-se dizer sem exageros que um dia Talita,Melina e Xavier ainda podem se encontrar para dividir um teto, assim como isso já aconteceu tantas vezes com outros amigos de amigos. Para mim essa sempre foi a melhor parte: gente diferente chegando em minha casa, aumentando meu círculo de amizades, de encontros inusitados, divertidos, diz Gustavo.

No fundo, quem não quer isso? Morar em paz, com liberdade, independência. Abrir sua vida (e sua casa) para que mais gente amiga chegue e vá ficando. Numa casa dividida, com jeitinho, atenção e delicadeza, cabe toda a humanidade.

As regras da casa

Tenha muito bom humor: Coloque-se na posição do outro e veja que bagunças surgem de todos os lados.
Tenham gostos em comum: Antes de dividir o apê, melhor saber que som seu futuro colega gosta de ouvir (alto) sábado cedo.
Programe-se com os colegas: Não marque jantar com a turma na mesma data em que o time do seu colega joga na TV.
Não mexa nas coisas dos outros: Você gostaria de ter suas coisas remexidas e não achar aquele papelzinho superimportante?
Não deixe de pagar as contas: Quem odeia pagar atrasado vai te odiar por isso.
Não se meta na vida dos outros: A não ser que alguém lhe peça uma opinião, o que cada um faz da sua vida é muito pessoal.
Bagunce só o seu canto: Faça do seu quarto a loucura total mas preserve as áreas comuns da casa.
Respeite o silêncio: É legal conversar sempre que possível. Mas, se você gosta de ficar calado às vezes, seu colega também.
Divida o mesmo espaço: Tem que ser tudo por igual: nada de querer ter o maior espaço na melhor das estantes.
Tenha sensibilidade: Procure ficar atento ao humor do seu colega.

Para saber mais

LIVRO:
- Organize-se, Donna Smallin, Gente

FILME:
- Albergue Espanhol, de Cédric Klapisch, Fox

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