Tudo se transforma
Nas ruas e caçambas das cidades há um mundo de surpresas para enfeitar a casa e esquentar a alma
por Chantal Brissac e Ana Tereza Clemente | fotos André Spinola
O dicionário Houaiss define lixo como "qualquer objeto sem valor ou utilidade". Mas descobrimos que isso está longe de ser verdade. Em caçambas, latões, depósitos e até mesmo na rua encontra-se uma infinidade de riquezas. De abajur a sofá, de TV a tapetes. Quem tiver consciência da escassez dos recursos naturais terá vontade de procurar o usado e recuperar o que foi desprezado. A atitude não irá acariciar apenas a alma, mas também os olhos e o bolso: há surpresas incríveis largadas na lata do lixo.
Em países como o Japão, a alta tecnologia e o consumo desenfreado fazem a população se despir de seus bens a uma velocidade estonteante. É comum os moradores, especialmente jovens e estrangeiros, montarem suas casas a partir do que é deixado na calçada. No Brasil, considerado o país do desperdício, esse movimento ainda é tímido. A população não está acostumada, como os europeus, a aproveitar ao máximo suas potencialidades. Lá, uma dúzia de laranjas, por exemplo, podem render suco, virar compota e também se transformarem, antes de azedar ou ficarem murchas, em geléia saborosíssima.
E quando se fala em roupas, móveis e objetos utilitários, o reaproveitamento causa mais estranheza. Talvez por preconceito em usar algo que foi de outra pessoa, talvez por indiferença com o futuro do meio ambiente, talvez por falta de generosidade em doar. Deveríamos pensar de maneira global e tentar preservar os recursos do planeta, que estão se esgotando, em vez de nos fixar no microcosmo, a nossa casa.
O designer Nido Campolongo dá um bom exemplo. O papelão que vira móveis e peças tão criativas em suas mãos é fruto do lixo industrial e preparado por presidiários e jovens de baixa renda. Nido cresceu respirando papel, porque seu pai era dono de uma tipografia. Hoje, encontra nessa matéria-prima a substância ideal para expressar sua arte. Cria colchas, almofadas, pufes, poltronas, mesas, cadeiras, luminárias, camas e tapetes. O repertório de itens é completo e daria para equipar uma casa inteira. Aliás, Nido já inventou mesmo uma casa de papel, que, em breve, será exposta em Santo André.
Como outros designers de sucesso e de consciência aguçada sobre os recursos ambientais, Nido segue a máxima de que no mundo nada se cria, tudo se transforma. Mas não é preciso ser artista para se inspirar nesse lema e desenvolver um mundo melhor, dentro e fora de casa.
A terapeuta corporal Helena Mangini lembra o dia em que achou um abajur numa caçamba do bairro de Pinheiros, em São Paulo. "Fiquei com o carro preso entre a caçamba e outro automóvel. Como sou curiosa, fui olhar e encontrei o abajur. Achei que ele teria utilidade: a cúpula e a fiação estavam ótimas." Como a maioria de nós, ela fica desconfortável em pegar algo no lixo, que, culturalmente, está associado a sujeira. Mas, nesse episódio, Helena admite que o impacto de ver uma peça perfeita mexeu com a sua consciência. "Achei um absurdo! Nunca jogo nada fora: dou para alguém."
Poltronas de garrafas
Há brasileiros de todos os cantos transformando lixo em objetos especiais para casa. No Rio de Janeiro, a favela Vigário Geral tem uma usina de reciclagem que converte garrafas PET em poltronas e pufes. O programa, patrocinado pela Fundação Ondazul, gera 2 500 móveis por ano, feitos a partir de 550 mil garrafas.
O aproveitamento desse e de outros tipos de plástico ainda é muito pequeno. O designer Sérgio Prado, fundador da ONG Curadores da Terra (www.cura doresdaterra.com.br), diz que apenas 15% das embalagens de Tetrapak e 27% das garrafas PET são recicladas no Brasil. Resultado: o plástico vai parar no mar. Setenta por cento do lixo oceânico é composto desse material. "O lixo mostra a cultura de um país", afirma Sérgio, autor de um projeto chamativo: uma casa feita de blocos de plástico prensado. "É de uma simplicidade única, porque tudo se encaixa como num Lego", diz ele.
Para o arquiteto, o projeto, que será apresentado na Bienal, pode solucionar a questão do déficit de moradia popular. Afinal, para fazer 1 metro quadrado dessas casas são necessários 100 quilos de plástico. E se fosse possível reciclar todo o plástico encontrado diariamente no lixo da cidade de São Paulo (3 600 toneladas), mil casas seriam erguidas por dia.
E o plástico não é o único artigo que pode render objetos para casa. Praticamente tudo o que você imagina vira algo útil e bonito. Paulo Kawall Vasconcelos, ex-fotógrafo, garimpador nato de objetos e peças legais, montou seu restaurante, em São Paulo, usando restos de lixo e achados de caçamba. As mesas, por exemplo, são partes de velhas janelas. Outro destaque da casa é a cadeira feita de assoalho velho e um pedaço de janela.
Tudo o que Paulo vê na rua, lhe desperta o desejo de aproveitar e restaurar. "Agora, as pessoas, quando não sabem onde depositar as velharias, trazem para mim." Mas ele ainda ronda a cidade e também o interior de São Paulo com sua "máquina mortífera", uma Saveiro 93 baleada, que tem uma boa caçamba para carregar as preciosidades encontradas.
Os irmãos Campana, Humberto e Fernando, designers consagrados, têm o olhar aguçado e o espírito caipira de fazer com as mãos. Pegam tudo o que está por perto. Premiados no Brasil e no exterior, com obras até no MoMa de Nova York, eles criam móveis a partir de mangueiras de jardim, antenas de TV, rolos de corda, restos de madeira. Em um curso no Mube, em São Paulo, jovens artistas assimilaram esse conceito da dupla. Christina Janstein, por exemplo, ficou famosa por sua poltrona de câmara de pneu. Peça original e confortável, pode fazer bonito em qualquer estilo de decoração.
Nelson Cottini Filho não tem o hábito de pesquisar caçambas, mas também não tem preconceito. Engenheiro, gosta de dar rumo a velhos materiais. Surgiu daí a idéia de luminárias com panelas e escorredores de macarrão. As peças ganham três furos, um arrebite e pronto: a luz está feita.
Lixeira chique
Maria Cecília Perretti Russi, contadora da prefeitura de Itapeva, interior de São Paulo, não cria nenhum tipo de móvel reciclado, mas ama de paixão adquirir um. Quando soube que sua empregada estava literalmente pondo fogo em uma cristaleira, correu para tentar salvar a peça. Não conseguiu. Mas trouxe para casa o que iria parar na fogueira: mesa de madeira entalhada com quatro cadeiras e um balcão, que ganhou vidros e prateleiras e se transformou em uma magnífica cristaleira. "Ninguém diz que estava cheia de cupins", conta ela.
A casa de Cecília guarda um jogo de cerâmica marajoara para feijoada, pescado em um sebo de São Paulo, e um antigo moisés de ferro, do tempo em que ainda não havia solda, reformado para embalar a netinha. Na prefeitura de Itapeva, Cecília é personagem conhecida. Já tentou convencer o prefeito da importância da reciclagem de lixo, algo que ela própria faz em casa solitariamente.
Se todos seguissem seu exemplo, um colchão não seria encontrado dentro de uma galeria e não teria provocado uma enchente, como aconteceu há pouco em Itapeva. Nas grandes cidades brasileiras, os transbordamentos de rios costumam ser decorrentes de dejetos jogados pela população.
O país produz cerca de 230 mil toneladas de lixo por dia. Isso equivale a duas filas de caminhões de 5 toneladas, ocupando o espaço de dez pontes Rio-Niterói. Como não há onde depositar tamanha quantidade de resíduos, é urgente a participação de toda a sociedade para reduzir e reaproveitar o lixo.
Muitas ONGs e fundações trabalham para esse fim. Uma loja no Shopping Villa-Lobos, em São Paulo, canaliza a produção de algumas delas. É a Projeto Terra, conhecida pelo fair trade (ou comércio justo), tendência mundial que garante a ausência de trabalho escravo e infantil, o benefício de comunidades produtoras e o respeito ao ambiente.
Da Aldeia do Futuro, que desenvolve atividades com mulheres de baixa renda da região de Americanópolis, periferia de São Paulo, vêm os tapetes e as almofadas de retalhos, que dão colorido e calor à casa. Da Coopa Roca, da favela da Rocinha, a contribuição são as luminárias de fuxico. Da Associação Monte Azul, que agrega moradores de favelas no bairro do Campo Limpo, em São Paulo, brilham as luminárias de tiras de madeira.
Enfim, num mundo de recursos finitos, onde tanto a obtenção de matérias-primas quanto a produção de bens consomem energia e desgastam o meio ambiente, essas iniciativas inteligentes nem precisavam ser simpáticas ou chiques. Mas são - fazer o quê...?
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