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Paz e amor, bicho

O afeto que brota entre humanos e animais de estimação tranqüiliza a mente e enternece o coração. Portanto, abrace e brinque com seu bichinho. Cabeça e corpo agradecem

por Mariana Sgarioni | fotos dos bichinhos do pessoal da redação

"Com o Zeca, não tem tempo ruim. Ele não perde um passeio por nada. Todos os dias, ele me acorda no mesmo horário, pronto para nossa caminhada. Ainda bem, porque se não fosse ele eu não teria tanto ânimo. Na volta, tomamos café juntos e ele fica ali, do meu lado, enquanto leio tranqüilamente meu jornal. Às vezes, quando me sinto meio triste, ele me traz um presente e me desafia para uma brincadeira desinteressada. Então a gente se abraça e parece que o mundo fica melhor, mais bem-humorado. Lá vem ele. Vem cá, garotão!"

Você já percebeu, né? Zeca não é um menino. É um cão. Labrador, por favor. E pelo relato acima você já deve ter notado que seu dono, um advogado casado, pai de três filhos, é daqueles que não tem vergonha de admitir que seu cachorro é muito mais que uma propriedade. Para ele, Zeca é um baita de um amigo. Um pouco peludo demais, é verdade. Mas sincero e dedicado.

E quando Zeca veio correndo, com um graveto na boca como presente, eu também não contive o sorriso. Aliás, confesse, qual foi a sua primeira reação ao ver as fotos dos bichinhos acima?

Pois é. Empurrar sorrisos para fora é o primeiro benefício que um animal proporciona a qualquer pessoa. E que benefício. Um sorriso espontâneo vale por uma sessão de relaxamento, porque enche o sangue de endorfina, um calmante natural que, além de amolecer deliciosamente o corpo, ainda fortalece o sistema de defesa do organismo. Ou seja, quem sorri mais adoece menos. É por essas e outras que não param de pipocar pesquisas afirmando que os donos de animais de estimação vivem mais, melhor e estão menos sujeitos a enfermidades. Por exemplo, um estudo publicado no ano passado no American Journal of Cardiology mostrou que o convívio com animais ajuda a controlar o estresse, diminui a pressão arterial e reduz o risco de problemas cardiovasculares. Pesquisas médicas na Austrália concluíram que donos de bichos de estimação se consultam com menor freqüência com clínicos gerais e requerem menos medicação que as outras pessoas. Sem contar os inúmeros trabalhos que apontam o quanto os animais diminuem sentimentos de depressão, solidão e ansiedade.

Mas por que isso acontece? Para alguns especialistas, a razão é quase poética. "Os bichos de estimação nos colocam em contato com a natureza animal, uma dimensão elementar que a sociedade e nosso estilo de vida se empenham em suprimir", diz Marty Becker, médico veterinário, autor de O Poder Curativo dos Bichos. "Por meio de um relacionamento íntimo com nossos animais, despertamos em nós características poderosas como lealdade, amor, instinto e jovialidade." Becker, dono de nada menos que 15 bichos, entre cães, gatos, peixes e cavalos, conta que aprendeu com um de seus cachorros uma habilidade que os seres humanos tanto anseiam: a de viver plenamente o presente. "Quando caminhamos juntos, ele não fica pensando no que vai fazer no ano que vem ou como será quando voltarmos. Na verdade, ele nem pensa. Está fascinado demais pelo mundo diante de seu focinho."

A serenidade do animal o contagiou
Quem convive com um mascote sabe que não é possível haver, entre humanos, uma relação como a que existe entre o animal e seu dono. O amor do bicho, por exemplo, é incondicional: não importa o que o dono faça ou diga, ele sempre receberá uma lambida, um abano de rabo ou pelo menos um olhar de atenção quando chegar em casa. O animal está sempre pronto para escutar, não cobra, não julga, não controla. Ele simplesmente se entrega, basta solicitá-lo, a qualquer hora do dia ou da noite.

E a intimidade? O bicho se deixa tocar, acariciar, mesmo por estranhos. E o toque, apesar de banido da maior parte das relações humanas (quantas pessoas você abraça por dia?), é uma necessidade biológica. Quem não quer dar e receber um afago, um chamego, um cafuné, afinal de contas? Para muita gente, é para isso que o gato está ali, no sofá. "Ao ver um bicho, você põe imediatamente a mão nele, acaricia. Nem sempre dá para fazer isso com outra pessoa", afirma Hannelore Fuchs, psicóloga e médica veterinária de São Paulo, presidente da Associação Brasileira de Zooterapia. Segundo ela, esse contato aumenta a auto-estima, a segurança e a confiança. "Muitas pessoas só querem ficar com o bicho no colo, mais nada. O colo é uma forma de dar abrigo, conforto."

Em alguns casos, um abraço com o totó vale por um Prozac. Verdade. Hannelore é testemunha do poder dessa interação. Ela foi uma das primeiras profissionais de saúde brasileiras a adotar a zooterapia, ou seja, utilizar animais no tratamento médico. O bicho, que pode ser cachorro, cavalo, rato, coelho e até mesmo peixe, atua como ajudante. Mas seu trabalho é tão útil que ganha cada vez mais aplicações. Hannelore utiliza os peludos para combater uma simples ansiedade e até para amenizar deficiências físicas e mentais. Em um trabalho voluntário, ela leva animais para brincar com crianças deficientes ou doentes. Seus resultados são preciosos: os pequenos desenvolvem a coordenação motora (ao escovar o pêlo do bicho, por exemplo), a coragem e a sociabilidade, entre outros benefícios. Às vezes, o bichinho serve de intérprete para a criança. "Muitas crianças contam para o cachorro o que não têm coragem de dizer ao terapeuta."

Essa cumplicidade não é um privilégio da meninada. A psicóloga Adriana França Barbosa conta que Mel, sua labradora de 2 anos e meio, é a primeira a perceber quando algo não vai bem. "Não preciso falar nada, pois ela me entende como ninguém", diz. Adriana ganhou Mel num momento difícil: a psicóloga se recuperava de uma paralisia facial e seu pai havia acabado de morrer. "Descobri que cuidar de uma outra vida significava cuidar da minha também. Ela me fez acreditar que eu poderia melhorar, ser uma pessoa mais feliz, menos ansiosa. Afinal, ela está sempre feliz."

Embora possam ser considerados terapeutas generalistas, cujo trabalho serve a vários propósitos, os animais também têm suas especialidades. Peixes, por exemplo, são excelentes tranqüilizantes - por que você acha que tantos dentistas têm aquário no consultório? Quem os observa fica mais calmo. Comprovadamente, a pressão sangüínea se reduz, diz a Associação Internacional das Organizações de Interação Homem-Animal (IAHAIO).

Mas, antes de ir à primeira loja de animais comprar um cãozinho ou um gato, é bom saber que não há benefício nenhum em ser simplesmente proprietário de um bicho. O que importa é a relação entre vocês. "O simples fato de ter um cachorro no quintal ou um passarinho na gaiola não significa a solução para problema algum", diz Dennis Turner, presidente da IAHAIO. "Antes de qualquer benefício tangível, uma relação social verdadeira deve ser estabelecida. Ela normalmente começa com a observação do bicho e depois com a interação em diferentes contextos." Ou seja, não basta ser dono, tem que passear, brincar, conviver.

Mas até que ponto a amizade e companheirismo entre humanos e bichos é saudável? Difícil dizer. Nesse caso, a opinião dos especialistas beira o senso comum: a relação é boa desde que não comprometa o bem-estar do mascote nem o da pessoa. "O animal supre o que falta no ser humano. Ele se presta a isso. A quantidade de amor, carinho e atenção vai depender da necessidade de cada dono. Tem gente que se limita a alimentar o bicho no quintal. Outras pessoas o chamam de filho e dormem com ele na cama. O que importa é ele ser um motivo de felicidade na sua vida", diz Mauro Lantzman, médico veterinário especialista em comportamento e professor de psicobiologia da PUC-SP. A psicóloga Hannelore Fuchs lembra que o bicho serve como ponto de equilíbrio na vida. "Há profissionais que são muito rígidos e severos no trabalho, mas com seu animal de estimação eles se derretem. Isso é necessário para essas pessoas se complementarem. Se não for assim, elas podem enlouquecer."

É verdade que quem vive nas grandes cidades tem uma tendência a humanizar demais o animal, mas mesmo isso pode ser saudável, na opinião dos psicólogos. Nos momentos de intimidade com o bicho, há um intercâmbio familiar, afetuoso e amoroso que vale por um tratamento completo - não só da mente, mas do corpo também. Se você afagar seu cachorro e ele o lamber, conforte-se. Nesse momento, ele estará partilhando com você um dos mais antigos rituais entre os mamíferos. As lambidas curam ferimentos, fazem cócegas e fortalecem o vínculo afetivo entre os indivíduos.

Então, aprenda a tirar o máximo dessa amizade. Quando estiver com seu animal, ligue os sentidos, mesmo aqueles que você não usa com seus parentes mais próximos. Resumindo: olhe, escute, toque e fale (mas, por favor, guarde o paladar para beijar a pessoa de que você gosta). Outra dica importante diz respeito aos hábitos diários. Muita gente não gosta de rotina, mas o bicho adora. Nem por isso ela precisa ser maçante. Acrescente alguns rituais agradáveis ao cotidiano de vocês (leia algumas sugestões à direita). E não se envergonhe de gostar de seu bichinho. Os animais de estimação são elos dos valores que prezamos, um canal da ligação histórica entre os seres humanos e a natureza. Eles nos ajudam a lembrar que não estamos sozinhos no mundo, mas unidos às coisas vivas. E que temos necessidade uns dos outros.

Amigo do pêlo
O veterinário americano Marty Becker é especialista nos benefícios da relação homem-animal. O assunto lhe rendeu o livro O Poder Curativo dos Bichos, um programa na TV americana e uma coluna semanal em diversos jornais chamada The Bond ("o vínculo"). Em entrevista, Becker conta um pouco das vantagens desse convívio.

Qual é o verdadeiro significado do vínculo para você?
Vínculo é aquele sentimento de conexão/afeição muito especial que as pessoas sentem por seus animais de companhia. Como o amor, parece um pouco nebuloso, mas é fácil de entender por quem já passou por essa experiência ou está imerso em seus benefícios.

Como se dá a troca entre seres humanos e animais?
Você não conseguirá experimentar os benefícios do vínculo ou do poder de cura dos animais apenas observando um cachorro andar na rua, acariciando o cão do vizinho na cabeça ou vendo outdoors de cachorros pela janela. Os benefícios só aparecem com a proximidade e com o contato físico.

Com a intimidade, ganhamos de presente o amor incondicional, afeição, lealdade e um sorriso constante nos lábios.

Você teve uma experiência pessoal com seus animais e seu poder de cura. Como eles o ajudaram?
Eu sofri um ferimento muito sério no pescoço há alguns anos. Meus animais me ajudaram de várias formas, como me levando para caminhar todos os dias e para ver o mundo do seu ponto de vista, o dos sentidos. Por conta da insistência de meus cachorros, eu me movia todos os dias. Sem dúvida, eles foram os melhores personal trainers.

Qual a melhor forma de convivermos com os bichos?
Tendo intimidade com eles, deixando que eles façam parte do nosso cotidiano. Acariciando, abraçando, escovando seus pêlos, enfim, interagindo com eles.

Um dia de cão
Dê banho você mesmo
O dono não ficará muito tempo com o bicho no colo ou mesmo perto dele se estiver exalando mau cheiro. Portanto, torne seu animal "abraçável".

Dê uma folga à pet shop e providencie você mesmo o banho do seu amigão. A água morna e o carinho da massagem com a espuma do xampu podem trazer ótimos momentos.

Escove os dentes
Mantenha a boca do seu animal saudável, assim você vai sempre querer estar próximo dele. Para isso, habitue-o à escovação dos dentes, fazendo desse momento uma brincadeira. Há no mercado cremes dentais apropriados - as pastas destinadas a humanos contêm muito detergente e podem fazer mal ao estômago - com sabores apetitosos.

Massagem, por que não?
Comece devagar. Observe o animal para descobrir seus pontos e tipos de toque prediletos. Dispense de cinco a dez minutos diários. Diga palavras suaves, num tom tranqüilizante. Aplique uma pressão gentil, com a mão meio encurvada, em movimentos largos, da cabeça à anca. Deixe que as pontas dos dedos (não as unhas) deslizem por todo o corpo, prestando atenção às partes em que ele mais gosta de ser afagado.

Invente jogos para vocês dois
Brinque com seu animal. Ensine novos truques a ele e aproveite para se divertir também. Nesse momento, podemos dar risada e diminuir o estresse. Lembre-se de que a diversão é prioridade na vida do bicho - para isso, ele estará sempre pronto.

Cozinhe para ele
Pelo menos uma vez por semana, dispense a ração e prepare você mesmo alguma coisa saborosa para seu animal comer. Ele vai ficar feliz da vida. Só não deixe de consultar antes o veterinário para saber que tipo de comida você pode fazer.

Para saber mais
• O Poder Curativo dos Bichos, Marty Becker, Bertrand Brasil
• Handbook on Animal Assisted Therapy, Aubrey Fine, Academic Press
• Associação Nacional de Zooterapia, (11) 3865-2940

Na internet
www.iahaio.org - Site da IAHAIO (Associação Internacional das Organizações de Interação Homem-Animal)
www.arcabrasil.org.br - Site da Arca Brasil (Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal)
www.equoterapia.com.br - Site da Ande-Brasil (Associação Nacional de Equoterapia)

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