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Trânsito S.A.

Para o cineasta Henri Gervaiseau, o ir-e-vir nas grandes cidades é também uma questão social

por Malu Rangel

“Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas”... Quem é que já não viveu situação parecida com a que Paulinho da Viola canta em Sinal Fechado? A promessa do telefonema, do papo no bar com aquele amigo de décadas, tudo se apaga na esquina seguinte, quando lembramos que ainda falta passar no banco, pagar o condomínio antes das 5 ­ sem atraso! ­ e comprar leite na padaria.

O ir-e-vir cotidiano chamou a atenção do diretor Henri Gervaiseau, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e coordenador do núcleo de audiovisual do Centro de Estudos da Metrópole (CEM). Henri acompanhou o trajeto diário de 15 pessoas pela cidade e fez o documentário Em Trânsito. Muitas das pessoas retratadas no filme passam mais de duas horas se locomovendo. E essas horas, mais do que simples transitar, se transformam num importante momento de sociabilidade. O motoboy conta as situações estapafúrdias de um dia acelerado de trabalho; o pastor evangélico faz seus cultos no vagão de trem; uma mulher caminha cerca de 20 quilômetros por dia e outra aproveita o engarrafamento e liga para os amigos. Cada um parece ter uma cidade diferente.

Quem convive com o caos das cidades raramente percebe que momentos da história de cada um são vividos na rua, no ônibus ou no carro. Como surgiu a idéia de falar sobre essa vida que está em trânsito?
Eu sempre me interessei pela questão do trânsito, sempre achei que é um meio onde as pessoas se relacionam umas com as outras de modo peculiar. E, observando esse trânsito, especialmente o transporte público, descobri que ele poderia ser um canal para entender mais sobre a sociedade brasileira. Jean-Luc Godard, cineasta francês que adora criar metáforas e provérbios, falou que, caso quisessem descobrir o remédio para a cura da Aids, seria preciso observar um engarrafamento. Eu achei a idéia muito interessante, porque, no fundo, a Aids tem a ver com relações entre as pessoas. E comecei a pensar no assunto. Sou franco-brasileiro e morei muito tempo em Paris, cidade que conta com uma rede de transportes públicos bem estruturada, onde o metrô existe desde o começo do século 20. Quando vim morar no Brasil, já adulto, não tinha carro. Andava muito de metrô e de trem, pois trabalhava em regiões que não eram centrais. Assim, ao mesmo tempo em que vivi a precariedade do transporte público por aqui, percebi a importância que ele tinha no dia-a-dia das pessoas, que passavam muitas horas em seus trajetos. Comecei a captar recursos para realizar um documentário sobre isso em 2001, mas ele começou de fato a ser produzido quando me mudei do Rio de Janeiro para São Paulo, contando com a ajuda do CEM (Centro de Estudos da Metrópole), que reúne pesquisadores de questões urbanas.

O filme mostra 15 pessoas bem diferentes: motoboy, fonoaudióloga, empregada doméstica, publicitária, motorista de ônibus... Acompanhando as histórias, dá para pensar que uma cidade grande é, na verdade, várias cidades?
Acho que sim. No início, tinha a idéia de fazer o documentário centrado em um lugar que funcionasse como ponto de convergência. Algo como o terminal Barra Funda (zona oeste de São Paulo), com ônibus, metrô e trem. Mas, estudando a cidade com a ajuda de especialistas em questões urbanas, geógrafos, fui convencido de que não existe um único ponto com essa função, mas muitos. Então, fomos pesquisar lugares onde havia mais fluxo: linhas de metrô, trem e ônibus mais movimentadas, por exemplo. Abordamos as pessoas nas plataformas e deixamos propostas em estacionamentos de carros para achar os entrevistados. Confrontamos experiências sociais e existenciais diferentes. A partir daí, percebemos muitas coisas: não só como de fato existem mesmo várias cidades, às vezes inconversíveis, já que São Paulo é maior do que alguns países europeus e latino-americanos, mas, principalmente, como as pessoas lidam consigo mesmas nos grandes centros.

Como as pessoas se sociabilizam nas cidades?
Especialmente como se enclausuram na própria solidão, fato muito freqüente, por exemplo, em ambientes pasteurizados e mais controlados como o metrô. Em grandes metrópoles, as pessoas são desconfiadas e evitam contato justamente para resistir ao excesso de estímulos. Mas os meios de transporte são, sim, lugares de sociabilidade, já que neles as pessoas inventam o cotidiano.

Um dos personagens mais tocantes do filme é Virgínia, que anda cerca de 20 quilômetros todos os dias por não ter dinheiro para pagar o ônibus. Ela reúne as experiências de quem vive em trânsito?
Virgínia tem um papel importante na narrativa do filme. Na verdade, é um papel emblemático, porque ela representa o sentido metafórico do transitar pela vida, que vai além do transitar pelo espaço. Um dos direitos fundamentais do ser humano é o direito de ir e vir. No caso, Virgínia tem esse direito limitado por falta de condições econômicas. Além disso, mais do que expressão daquela sociabilidade que as pessoas acabam desenvolvendo em seus meios de locomoção, ela representa a solidão que, muitas vezes, é a única resposta que a grande metrópole oferece.

Viver numa grande cidade com qualidade de vida é possível? Ou o lazer acaba acontecendo nas frestas?
Tudo depende, há várias percepções da cidade. Para muita gente, é difícil ter lazer. As pessoas que moram na chamada periferia vivem longe, passam períodos enormes se locomovendo, trabalhando, e, quando chegam em suas casas, estão afastadas dos cinemas, teatros, museus ­ que muitas vezes são caros até para alguém de classe média. O que acontece é que várias cidades vão sendo criadas, várias iniciativas e tentativas de fazer com que exista qualidade de vida são postas em prática.

A qualidade de vida também está ligada à preservação do meio ambiente e à consciência ecológica. Quais providências você vê como necessárias?
As principais medidas ­ que inclusive estão sendo colocadas em prática em algumas grandes cidades da Europa e da América, como mostra o plano do prefeito de Nova York ­ são a redução do número de carros que circula diariamente pelo centro e o fortalecimento do sistema de transporte público. Pensando melhor nos eixos rodoviários, na articulação entre ônibus, trens e metrô, certamente a vida se tornaria mais fácil e a cidade, mais agradável. Essa é uma questão que também se conecta com engenharia de tráfego, organização das ruas, decisões de políticas públicas, enfim, com a administração de uma cidade. É preciso que medidas enérgicas sejam tomadas para preservar o ambiente. Caso contrário, nós poluiremos cada vez mais, provocaremos mais acidentes e agravaremos uma situação que já é perigosa.

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