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Reinventando a vida

Com a serenidade de quem vive bem consigo, a escritora gaúcha Lya Luft fala sobre como a vida pode ser boa

por Ana Cristina Campos | foto Divulgação

Envelhecer é um tema tabu para muita gente. Mas não para a escritora Lya Luft. Aos 65 anos, ela explora o assunto com naturalidade no recente livro Perdas & Ganhos, que já vendeu cerca de 114 mil exemplares. Difícil classificar essa obra inquietante. Não se trata de ensaio, ficção nem muito menos auto-ajuda. Está mais para uma conversa com o leitor. Um papo oportuno sobre a passagem do tempo e como empobrecemos nossa vida subjugados por preconceitos, pela pouca valorização de si, esmagados pelo mito da eterna beleza e juventude.

"Um dos motivos de nossas frustrações é vivermos numa cultura que idolatra a juventude, que endeusa a forma física além de qualquer sensatez. Se maturidade é fruto da mocidade e velhice é resultado da maturidade, viver é ir tecendo naturalmente a trama da existência", escreve ela. Em sua vida pessoal, Lya passou por grandes transformações na maturidade. Aos 46 anos, depois de muitos anos de casamento com o filólogo Celso Pedro Luft e três filhos, ela se apaixonou pelo psicanalista Hélio Pellegrino. Casaram-se e ela se mudou de Porto Alegre para o Rio de Janeiro. Três anos depois, ele morreu e a escritora passou por um longo luto. Lya voltou a casar-se com o primeiro marido, de quem também já enviuvou. Hoje, diz que gosta de ficar quieta em casa, curtindo filhos e netos, tecendo projetos e apreciando os afetos. Além, é claro, de elaborar sua arte e reinventar-se sempre.

Você se preparou para chegar aos 65 anos produtiva?
Nunca pensei muito nisso, apenas sempre gostei da vida, de viver cada momento intensamente. Nas fases difíceis, com esperança de que iam passar. Nas melhores, sabendo que tudo é sagrado.
Como envelhecer bem?
Não sei, mas quando ficar velha imagino que seja ter projetos, afetos, esperanças e sonhos, e me dar conta, cada vez mais, de que o tempo não existe. Eu sou sempre a mesma: sou eu.
Você é mais feliz hoje?
Depende do conceito de felicidade, que também muda com o tempo. Quando se é jovem, tem-se a impressão de que ser feliz é não ter problemas. Com a maturidade, aprende-se que ser feliz é lidar bem com os problemas. Hoje, sou mais serena, bem-humorada, mais generosa comigo mesma e com os outros.
A maturidade está necessariamente ligada à idade?
Não necessariamente. Pode haver pessoas de 50 anos que ainda não amadureceram e jovens de 25 anos razoavelmente maduros. Mas são exceções. Em geral, a experiência é que traz o amadurecimento.
Quais são os ganhos e as perdas da maturidade?
Perdas são algumas pessoas que morreram e algumas habilidades físicas da juventude. De resto, são ganhos: mais profundidade, liberdade, autoridade, autonomia, calma para curtir a família com filhos crescidos, ter amizades de décadas, fortes e boas.
Como é virar best-seller aos 65 anos?
Virar best-seller é divertido e compensador, mas isso pode ser aos 25 ou 65 anos, a idade não tem a menor importância. Eu, por exemplo, estou começando uma nova vida agora. Estou começando a pintar, a ter nova relação amorosa e talvez até me case. Volto a dizer: a idade não é importante, o que importa é o que se está vivendo.
O que esse sucesso lhe ensinou?
Que o mais importante não é sucesso, mas afetos, amizades, a vida. É agradável, mas não é essencial. Sucesso é acidente. Pode vir hoje e amanhã não existir mais.
A que atribui tanta repercussão com um livro de um tema difícil, como envelhecer?
À seriedade com que trabalho meus romances. Sim, porque esse livro também é uma obra literária. E fala no ouvido do leitor fazendo dele um cúmplice. Sendo natural e verdadeira.
Como pratica a simplicidade em sua rotina?
Com roupa simples, hábitos simples, nada de badalações, jamais correr atrás de fama ou glórias, ser muito discreta em tudo. Mas é lógico que gosto de coisas boas, de bom perfume, boa música e pintura. Gosto da simplicidade com requinte, da simplicidade sofisticada.
O que mudou para você no amor e na sexualidade com a maturidade?
O amor é sempre o mesmo, apenas a gente fica mais livre, tranqüila, divertida e natural. O que não pode é ficar obcecado pela idolatria da eterna juventude, que paralisa. E também não cabe esse preconceito de que só há boa vida sexual até os 40 anos.
Por que há tanto interesse pela aparência física?
Por pura futilidade. As pessoas estão sofrendo demais, angustiando-se demais, perdendo tempo e dinheiro em busca da eterna beleza. As pessoas estão ficando deformadas e feias com esse excesso de cirurgias plásticas e botox. As mulheres de 40 anos querem ficar com cara de 20 e as de 80 querem ter aparência de 40. Estão virando caricaturas.
A idéia da morte lhe assusta?
Ela é nossa companheira mais certa desde o nascimento. Não gosto de pensar que um dia deixarei de curtir a vida e tudo que amo, minha casa, pessoas, natureza, pensamentos. Mas talvez depois seja tudo bem mais fascinante, quem sabe? Eu não gostaria de morrer, mas é inevitável e não adianta ficar divagando, pois não sabemos nada sobre ela. A melhor maneira de se preparar para a morte é viver bem, com dignidade, alegria, sendo amoroso e ético.
O que foi mais difícil nessa sua trajetória?
Vencer a timidez intelectual. Foi por isso que só publiquei romance aos 40 anos. Só venci essa insegurança com o amadurecimento. Como meu primeiro romance, As Parceiras, foi bem recebido pela crítica e pelo público, fiquei mais tranqüila. Compreendi que havia nascido para ser escritora, tanto que me demiti da universidade onde dava aulas. Meu marido, Celso Pedro Luft, foi meu grande incentivador.
Que tipo de reflexão você quer provocar nos leitores de Perdas & Ganhos?
A vida vale muito, você vale muito, somos transcendentes, somos mistério e devemos cultivar mais alegria. A gente se lamenta demais. Percebi tudo isso vivendo, amadurecendo, observando. Devemos curtir mais as coisas boas e dar menos valor ao que é ruim.
Você acha que conseguiu entender a vida ou ainda há o mistério?
Cada vez entendo menos, por isso, é fascinante, por isso, escrevo. Escrevo para tentar entender a vida. Escrevo sobre o que não entendo. O dia em que tiver compreendido tudo, deixo de escrever, porque aí terei perdido o interesse. A vida é mistério e, por isso, ela é fascinante.

Para saber mais
Perdas & Ganhos, Lya Luft, Editora Record

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