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Rei do riso, homem do povo

A vida de Oscarito, um de nossos grandes comediantes, é uma lição de graça e simplicidade

Jeanne Callegari

O corpo é pequeno e magro, maleável. O rosto se abre em um sorriso que é a perfeita máscara do palhaço. Até na compleição física, Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concépcion Tereza Dias era talhado para comediante. E não qualquer comediante: um dos maiores que o país já teve, idolatrado por adultos e crianças que assistiam às chanchadas de que participava na Atlântida, a principal e mais bemsucedida casa do gênero no Brasil. Sim, está-se falando de Oscarito.

Além da maleabilidade do corpo, que permitia que encarnasse com perfeição as gingas do malandro carioca, e do rosto de palhaço, expressivo e engraçado até quando ficava calado, Oscarito veio ao mundo em uma família em que pai, mãe, tios, avós e irmã participavam do circo.A tradição circense da família remontava a 400 anos, e foi nesse berço que há 100 anos nasceu em Málaga, na Espanha, o pequeno Oscar.Tivesse nascido dois dias antes, seria português; três dias antes,marroquino.Vida de circo.

E foi debaixo das lonas de um picadeiro que o menino fez sua estréia em um palco, já no Brasil, para onde seus pais se mudaram quando tinha 1 ano de idade. O circo foi a principal escola de Oscarito nos primeiros anos.Fez de tudo um pouco,até números de trapézio com a mãe e a irmã.Aprendeu violino, que tocava bem o bastante para fazer parte das orquestras de cinemas do Rio de Janeiro, antes da chegada do filme falado. Quem gargalhou na cena em que faz o Romeu, de Carnaval no Fogo (1949), junto com Grande Otelo, que interpretava a Julieta, não pode imaginar, mas Oscarito não começou nos palcos como comediante. Seus primeiros papéis eram dramáticos, até que uma vez interpretou um personagem de origem judaica em um drama, e o público veio abaixo.Nascia o comediante.

A partir daí, a carreira de Oscarito deslanchou. Foi como palhaço, inclusive, que conheceu a esposa, Margarida Louro, a Margot, também atriz. Era 1932, ele fazia o clown Tony Soirée no circo Democrata, na praça da Bandeira, no Rio. Ele estava no alto da escada e ela, que tinha ido ver o espetáculo, no primeiro degrau. “Olhamos um para o outro e nos apaixonamos”, contou Margot. Casaram dois anos depois e não se desgrudaram mais.

Dupla do barulho

Oscarito era dedicado à mulher, Margot, e aos dois filhos, Miriam e José Carlos. Ao contrário de seu parceiro nas telas, Grande Otelo, o comediante não era dado a farras com os amigos. Pelo contrário, preferia os prazeres simples da cidade de São Lourenço, no interior de Minas Gerais, onde passava parte do tempo e buscava inspiração nos personagens do povo. Da linhagem de Chaplin, Totó e Cantinflas, era das classes mais humildes que o artista tirava seus melhores papéis.

Por ser diferente de Grande Otelo, que fazia o personagem mais esperto, em oposição a um tipo sonhador e frágil, Oscarito era o avesso perfeito do colega. Atuaram juntos em alguns filmes antes de a dupla se formar definitivamente em Não Adianta Chorar, de 1945.Fariam mais nove comédias juntos, em uma parceria tão bem-sucedida como a de Oliver Hardy e Stan Laurel, de O Gordo e o Magro.

Não que Oscarito ligasse muito para a fama. Pelo contrário, parecia não ter idéia de sua importância para as produções da Atlântida, onde tinha um salário modesto.Profissional dedicado, importava-se mesmo era com o carinho do público. “Filme que não é aceito pelo público algum defeito deve ter”, afirmou certa vez.Ao contrário de outras estrelas tupiniquins, não se deslumbrou com a possibilidade de ir para Hollywood. Quando o comediante Bob Hope esteve no Brasil, em 1948, e viu a imitação do presidente Dutra feita por Oscarito no teatro Recreio, foi à loucura. Queria de todo jeito levá-lo para os EUA, mas o cômico recusou. “Aqui no Brasil, sou Oscarito. Lá, podem querer que eu seja um Bob Hope, e eu acabarei não sendo nada”, disse a Margot, explicando sua decisão.

Pois Oscarito não quis embarcar para Hollywood, mas da paródia de produções americanas saíram alguns dos mais memoráveis momentos de sua carreira. O dedicado ator passou uma noite inteira assistindo Gilda para ver a melhor maneira de imitar Rita Hayworth. Descobriu que o macete estava nos ombros, e a paródia, levada a cabo em Este Mundo É um Pandeiro, de 1946, é um dos marcos de sua carreira, ao lado do dueto com a Julieta de Otelo, dos duelos com José Lewgoy,o talentoso vilão das chanchadas, e da imitação de Getúlio Vargas em Nem Sansão,Nem Dalila, de 1954.

“Dormir, ir à praia”

Tendo aparecido em 47 filmes, gravado três discos, feito inúmeros papéis no teatro e incursões pelo rádio e pela televisão, Oscarito se despediu das câmeras em 1968, no filme Jovens pra Frente, de Alcino Diniz. Recebeu muitos convites para voltar ao trabalho, mas, assim como recusara a ida para a Califórnia, declinou das tentativas saudosistas de reviver um tempo que não voltaria mais. Sua rotina a partir daí, como descreveu a O Pasquim, era “dormir, ir à praia, ler, dormir, acordar, ir à praia”, simples como a de um dos malandros que tão bem soube interpretar na tela. Às vésperas de completar 64 anos, ele ensaiava o gingado do malandro na sala de casa, enquanto a família arrumava as malas para ir ao sítio. Em poucos minutos, as pernas começaram a formigar, ele desmaiou. O derrame cerebral o mataria dez dias depois, em 4 de agosto de 1970.

Em vida, Oscarito deixou uma lição de simplicidade, talento e amor genuíno ao trabalho. Hoje, podemos ver seus filmes e perceber que seu humor ainda repercute, ainda nos encanta pela ousadia, pela comunicação instantânea, popular.

Para saber mais

Livros:
Este Mundo É um Pandeiro, Sérgio Augusto, Companhia das Letras
O Pasquim – Antologia, vários autores, Desiderata

Filme:
Aviso aos Navegantes, direção de Watson Macedo, Versátil

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