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Outro olhar

Mais atenção e paz de espírito. Esses são os benefícios da fotografia miksang, uma técnica que usa uma câmera como ferramenta de meditação. E você ainda ganha fotos melhores

por Liane Alves

Na primeira vez que vi uma foto miksang, não consegui identificar exatamente do que se tratava. O slide que olhava contra a luz era colorido e vibrante, em tons de roxo, vermelho e azul, com reflexos brilhantes da luz solar. Mas as cores transmitiram-me alegria. Era como se alguém quisesse retratar a felicidade de um dia de verão sem se deter num objeto, numa pessoa ou numa situação. Sorri e olhei para quem tirou a foto, Alice Haspray, uma experiente instrutora de meditação de Halifax, na Nova Scotia, uma das regiões mais lindas do Canadá. "Essa foto é o resultado de um exercício de contemplação meditativa. Quando a fiz, estava meditando", disse. Como assim, meditando? E a gente é lá capaz tirar uma foto enquanto medita? Ela parece adivinhar meu pensamento e continua. "A meditação pode ser transposta na ação, em qualquer atividade que fazemos. Na verdade, o ideal é que consigamos meditar o maior tempo possível, seja lavando louça, encerando a casa ou passeando no parque." Olho de novo para o slide e noto que a técnica também tem grande efeito sobre a qualidade das fotos - as imagens parecem vir de um fotógrafo profissional. Ela revela, afinal, o que são as formas retratadas. "São apenas papéis de bombom amassados que alguém jogou no convés de um barco. Eles atraíram a atenção do meu olhar."

De repente, minhas noções de fotografia e meditação ganham novos horizontes. É possível se meditar enquanto se fotografa! Que delícia! Tirei o resto do dia para saber tudo o que podia sobre isso.

Desconstruindo o olhar
Miksang significa "bom olho" em tibetano. Sugestivo, afinal a proposta é aprender a enxergar a realidade de outra maneira. Isto é, aquela maneira certinha com que enquadramos tudo o que vemos vira do avesso. Porque na fotografia miksang, ou fotografia contemplativa, são outros critérios que disparam o clique. É por isso que muda tudo.

De maneira habitual, não somos conscientes do que nos chama a atenção. Nossa concentração muda de foco o tempo todo, por vários motivos, mas não percebemos (nem a mudança nem os motivos). É como se vivêssemos constantemente em uma espécie de sono: não estamos despertos nem atentos, estamos dormindo mesmo quando acordados e vivemos essa vida como imersos em um sonho interminável. "Despertar também significa estar atento. Quem está desperto está consciente, alerta, vivo, nem que só por alguns momentos", diz Alice. A proposta da fotografia miksang é nos deixar mais abertos e atentos para o que nos chama a atenção - e é exatamente aí, com o que nos desperta a atenção e toca o coração, que ocorre o clique. Ficamos mais ativos e conscientes - e não mais passivos - ao que captura o nosso olhar. É um treino para o despertar e certamente uma maneira segura de redescobrir o encanto da vida e das coisas encobertas pela névoa do sono.

Lembrei-me do escritor Nelson Rodrigues. Ele tinha o hábito de sempre mudar de lugar os porta-retratos das pessoas que amava. Sabia intuitivamente que, se elas ficassem no mesmo canto, ele acabava "cego" para as imagens. Era como se elas deixassem de existir. É uma característica bem humana. A gente fica mesmo cego para o que permanece igual aos nossos olhos. Passamos assim por verdadeiros milagres e nem notamos. Aqui, no prédio onde fica a Editora Abril, por exemplo, é possível ver esplêndidos crepúsculos. Um dia chamei a atenção de um colega para o maravilhoso pôr-do-sol que se podia ver da janela. Ele levantou os olhos do teclado do computador por um segundo e disse: "É. Todo dia é assim". Pois é. Somos campeões do "todo dia é assim".

É esse enfoque da vida que a foto miksang muda. O olhar abre-se de novo para testemunharmos o encanto da vida. O reflexo de um balão de gás no capô de um carro. A beleza de uma rã pulando num tanque de águas paradas. Uma foto miksang é uma espécie de hai-kai visual, um instantâneo da beleza da nossa existência.

Abrindo-nos para aquilo que nos chama a atenção, sem prejulgamentos, descobrimos que o olhar é atraído por coisas como cores, formas, movimentos e reflexos, mas também por sensações, sentimentos ou até aquilo que nos faz rir. A leveza de um pedaço de papel que voa, a tristeza de um graveto nu, o girar alegre de um cata-vento. Instantes que, sem o exercício, passariam despercebidos. É por isso que as fotos miksang parecem tão cheias de cor e vida. É porque quem as tirou estava realmente mais "vivo" e atento ao momento presente.

Clique meditativo
Alguém pode dizer aí o que é meditação? Eu, pelo menos, levei anos para entender bem essa história. Isso porque a gente cai sempre num equívoco, isto é, confunde meditação com técnica de meditação. Então é comum uma pessoa dizer que meditar "é sentar numa almofada, com a coluna ereta, os olhos semicerrados e prestar atenção na respiração". Não, isso é a técnica, os passos para se chegar a algum estado meditativo. Para responder o que é meditação, o mestre tibetano Chögyam Trungpa (veja quadro), inspirador da fotografia miksang, foi direto ao ponto. A meditação, diz ele, é um exercício de atenção plena - no caso da meditação na almofada, atenção à respiração. Também é um exercício de consciência panorâmica - ou seja, na meditação você procura estar plenamente consciente e presente a cada momento, sentindo seu corpo e o ambiente onde está, sem se perder nos pensamentos. Portanto, meditação, é uma prática espiritual que estimula a atenção e a consciência do instante presente. O resultado disso é uma mente mais estável e tranqüila.

Ocorre que atenção plena e consciência do momento presente a gente pode aplicar também em outras atividades - por exemplo, nas artes contemplativas, que são formas de meditação na ação. No Japão, onde há uma tradição em meditação, é possível praticar com arco-e-flecha, caligrafia, dança, poesia, pintura ou fazendo arranjos florais e comendo. Todas elas são formas tão válidas quanto a da meditação sentada. Sabe a cerimônia do chá? Bom, chá não passa de uma mistura de água com ervas. Por que então essa cerimônia foi construída de forma tão elaborada, com tantos salamaleques? Porque seus números detalhes e gestos estimulam a atenção plena e a consciência do momento presente. É, portanto, uma forma de meditação.

Chögyam Trungpa incentivou todas essas antigas artes contemplativas em seus centros de meditação nos Estados Unidos e no Canadá. Mas também quis aplicar o princípio em artes mais modernas. Nasceu assim a fotografia miksang.

Inspirado em Trungpa, seu mestre durante anos, o fotógrafo americano Michael Moore elaborou diversos cursos de miksang em que donas-de-casa, estudantes, profissionais liberais e centenas de outros fotógrafos experimentam as delícias de tirar fotos como forma de meditação.

Coração desperto
O curso começa sempre com um pouco de meditação sentada. Nessas palestras, Moore costuma lembrar a importância da atenção plena e da consciência do momento presente para as fotos miksang - o fotógrafo deve estar consciente do seu corpo, da respiração, do ambiente e do sentimento e não apenas ficar absorvido no ato de fotografar. Depois de algumas aulas e várias explicações adicionais (leia ao lado), as pessoas saem para tirar fotos usando filmes para slides.

Os temas são variados. Algumas vezes, os alunos saem para fotografar a luz. Outras vezes, para se deixar levar por uma cor ou um sentimento. O importante é que, ao disparar o botão, estejam em estado meditativo, atentos ao que ocorre dentro e fora de si, sem se deixar envolver por pensamentos.

As fotografias são reveladas na hora e comentadas entre todos. Para os mais avançados, Moore ensina outras técnicas, como reconhecer na natureza as energias pertencentes às cinco famílias búdicas, que são associadas aos elementos terra, fogo, água, ar e espaço.

Viagens são ótimas oportunidades para exercitar a fotografia miksang. Em um ambiente diferente, o olhar não está viciado, existe o encantamento pelo novo. Assim, pode ser que da próxima vez que for à praia, você registre apenas a pontinha de um coqueiro, o olhar plácido de um pescador, a fumaça espiralada de um cigarro de palha ou os pés descalços de uma criança. Enfim, imagens mais significativas e capazes de evocar a verdadeira dimensão do que você sentiu. E, para alegria dos seus amigos, uma mudança radical no seu álbum de retratos.

Chögyam Trungpa
O criador da fotografia miksang destacou-se bem cedo. Com apenas 18 anos, em 1958, assumiu o posto de abade-superior do mosteiro de Surmang, um dos mais esotéricos do Tibete. Para seus seguidores, Trungpa tinha poderes xamânicos e era um reconhecido terton - mestre que, segundo a tradição budista daquele país, é capaz de descobrir, em estado alterado de consciência, textos espirituais ocultos na natureza - em nuvens, pedras ou rios -, escritos pelos grandes líderes espirituais tibetanos do passado.

Em 1963, já morando na Europa, estudou religiões comparadas na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Emigrou para os Estados Unidos em 1970 e, ali, sem o hábito de monge, fundou a maior universidade budista do Ocidente, três anos mais tarde.

Seus discípulos eram em sua maioria hippies, a quem ensinava nas montanhas do Colorado no auge do flower power, na década de 70. Tinha especial apreço pelas mulheres e era admirador confesso de um bom saquê.

Trungpa levou as artes contemplativas para os Estados Unidos para auxiliar a meditação sentada e inspirou a criação da fotografia miksang. Mandou vir o mestre arqueiro do imperador do Japão (Shibata Sensei, ainda vivo) para ensinar arco-e-flecha aos seus estudantes. Ele mesmo era um exímio calígrafo e artista plástico, além de ser um dos mais respeitados professores de budismo do mundo. Criou a linhagem Shambhala do budismo tibetano e o aprendizado Shambhala, programa baseado na tradição guerreira, para pessoas de todas as religiões. Morreu com apenas 47 anos, em 1986. Hoje, a comunidade Shambhala, liderada por seu filho, Sakyong Mipham Rimpoche, tem cerca de 100 mil membros em todo o mundo, inclusive no Brasil (www.shambhala.org e www.shambhala-brasil.org). Um legado de peso vindo de um mestre incomparável

Regras básicas
1. Procure antecipar sua excursão miksang com 15 ou 20 minutos de meditação sentada. Procure um lugar calmo, sente numa almofada com as costas eretas, sem tensão, as pernas cruzadas, as mãos caídas sobre as coxas, o olhar num ponto fixo cerca de um metro e meio à sua frente. O queixo fica ligeiramente retraído, a ponta da língua atrás dos dentes superiores. Preste atenção apenas na sua respiração, no ar que entra e sai. Se um pensamento surgir, simplesmente, volte de novo para a respiração, sem se irritar. Depois de 20 minutos, prepare seu material e saia para fotografar, de preferência em um lugar tranqüilo e sem tráfego.

2. Esse é um exercício espiritual, uma forma de meditação. Relaxe mas permaneça alerta com aquilo que atrai sua atenção. Tudo o que você fotografar é válido, da maçaneta da porta a um pedaço de céu. A fotografia miksang não procura mostrar algo com significado imediato, como um banco de jardim, uma flor, um passarinho. Ninguém precisa identificar o que você fotografou, não é esse o objetivo. Portanto, procure liberar a tensão, descontrair-se. Aproveite essa folga de expectativas.

3. Procure descondicionar seu olhar. Preste atenção em lugares que você geralmente nem considera: beirais de telhados ou sarjetas, poças d'água, cadeiras de botequim, tronc os de árvores. Máquinas automáticas e digitais são ideais para as fotos miksang, pois com elas não é preciso se preocupar com a parte técnica.

4. Clique quando se sentir verdadeiramente tocado por algo, quando alguma coisa realmente atrair sua atenção - a cor, o movimento, o sentimento que ela desperta em você. Lembre-se: não precisa ser o objeto inteiro. Se for uma pessoa, pode ser que suas mãos digam mais sobre ela do que o rosto - ou seu jeans rasgado, sua mochila ou seu nariz.

5. Se quiser, escolha um tema para fotografar nas primeiras vezes: uma determinada cor, a água, as folhas.

Para saber mais
www.shambhala-brasil.org - Site do grupo de meditação que representa Chögyam Trungpa no Brasil

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