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É para o seu bico

O canto desvenda nossa voz, revela o que sentimos e ajuda a equilibrar corpo e mente. E o melhor: todo mundo sabe cantar (embora muitos achem que não)

por Débora Mamber | ilustração sobre fotos de Ivan Shupikov

Primeiro foi uma dor aguda, como que parida do nada, de repente. Então, o grito. Não era qualquer grito. Era uma bala de canhão saída de dentro do corpo, um estrondo da alma. E logo chegou o choro, um dilúvio infantil, melódico, sentido. Enfim, veio o canto. Ah, o canto... Não era qualquer canto. Parecia mais um perfume sonoro, suave e luminoso, que ia penetrando todos os poros sem pedir licença, seduzindo sem esforço algum.

Foi assim, estranho e sofrido, o começo da minha experiência com o canto. Também, pudera. Quem mandou eu escolher justo a terapia bioenergética para conhecer minha voz? É que essa técnica usa exercícios corporais e toques (muito doloridos), na crença de que eles desbloqueiam a energia que estaria presa ao longo do corpo. Às vezes, as sessões pareciam verdadeira tortura. Mas, terminada a agonia, como era bela e límpida, como fazia bem ouvir aquela voz! Difícil evitar o sorriso no rosto, tal a surpresa. Taí: isso é poder - e gostar, muito, de cantar. A partir dali, tornou-se um vício, uma necessidade e um refúgio. No trânsito, no chuveiro, na chuva. Na solidão e na multidão, na saúde e na doença.

Doença essa que índios e mestiços peruanos dizem curar com a ajuda de seus cantos rituais, os icaros. Dizem o mesmo sobre seus cantos os pajés na Amazônia brasileira, os toltecas mexicanos, iogues de norte a sul da Índia e tantas outras culturas tradicionais. E que dirá das cantigas de ninar das mamães mundo afora, que fazem a aflição dos bebês sumir feito bolha de sabão, num passe de mágica? Os mistérios curativos do canto estão por aí, em diversas culturas de todas as épocas, esperando ser desvendados por quem se aventurar em seus caminhos. A bioenergética é apenas uma maneira de abrir a porta para se conhecer a voz. Há outras.

Conhecer a voz? Sim. A voz, única e intransferível, é uma impressão digital. Ela desnuda traços de personalidade. O tom, a colocação e o volume podem ser mais reveladores que o conteúdo de um discurso. "Existe um rumo natural da voz, que acaba distorcido", afirma a psiquiatra Ângela Miranda. Aguce os ouvidos e você perceberá nuanças nas vozes das pessoas à sua volta, que dizem respeito ao que elas sentem no momento em que falam. Alguns falam alto demais, outros têm uma conversa empolada. Uns quase sussurram, outros mal articulam as palavras. E é comum pessoas falarem em tons diferentes dependendo da situações. Quem nunca presenciou uma discussão em que um sujeito de voz grave, irritado, chega a falar quase em falsete? Observar cuidadosamente o modo de falar das pessoas desenvolve a capacidade de ouvir - princípio básico para quem deseja entrar no universo do canto.

O passo seguinte, ainda mais fascinante, é voltar o ouvido para a própria voz. Ela tem muito a lhe ensinar sobre você mesmo. Qual a cara da sua voz quando você está triste, nervoso ou surpreso? Descobrir o seu verdadeiro som, aquele encoberto por tantas angústias, traumas e sentimentos trancafiados, traz uma nova consciência sobre si e é uma poderosa ferramenta terapêutica. "A voz é sempre o resultado de sua relação consigo mesmo", afirma a paraibana Fabíola Medeiros, terapeuta da voz. O objetivo desse processo não está na pureza do som. São precisamente as impurezas da voz de cada um que a tornam única. "A voz está impregnada da história de vida da pessoa. Um coral de vozes puras seria uma chatice", diz o cantor lírico Paulo Mandarim.

Desencantando
Mas a voz da fala é apenas o princípio. Ao exprimir uma música, ela deixa de ser um mero veículo para a comunicação da razão. "Entoar uma melodia significa passear com a sua alma", diz Madalena Bernardes, que se define como artista da voz. Por isso mesmo, não há segredo: para cantar, basta sentir. Experimente cantarolar uma canção qualquer criando uma imagem mental para cada palavra ou frase. Ponha a imaginação para trabalhar, invente, lembre-se de uma cena, objeto, cheiro ou cor que evoque o sentimento da canção. Como a "dura caminhada pela noite escura", que Gil trilhou em Drão, por exemplo. Pense nela, e só então cante. É tiro e queda: sua voz muda, instantaneamente. "Quando direciono o que canto, fica mais fácil - eu, em algum lugar, cantando algo para alguém", afirma Madalena. É exatamente por esse motivo que os melhores cantores não são apenas os que têm a voz mais bela ou os que dominam a técnica, mas sim aqueles capazes de transmitir emoções verdadeiras por meio da voz. Lembre-se de Elis Regina, de Milton Nascimento, de Billie Holiday e de tantos outros que nos encantam a cada vez que cantam.

A via direta entre o sentimento e a voz pode ser usada nas duas mãos. Já falamos da percepção de como emoções transparecem no som que sai do seu corpo. Que tal agora arriscar o caminho oposto: empregar esse som para provocar reações emocionais na sua alma? Num dia tristonho, cinzento, faça uma força e cante, mesmo sem vontade. Esse pode ser justamente o instrumento necessário para dissipar a nuvem carregada que paira sobre sua cabeça - ou até mesmo para dar vazão à angústia. É o princípio terapêutico dos mantras, uma verdade tão aceita pelos hinduístas quanto a própria existência de um Deus supremo. Eles são utilizados para promover a ampliação da consciência, alimentar o espírito e harmonizar os chacras. Tudo isso apenas com o ato de entoar uma série de sílabas ou frases em sânscrito que invocam a energia criadora do Universo - que, de acordo com sua religião, foi também uma vibração sonora: o "Om".

"O mantra é um remédio com efeitos reais, assim como uma substância química", afirma a cantora indiana Meeta Ravindra, que reside em São Bernardo, na Grande São Paulo, e promove a divulgação da cultura de seu país no Brasil. O tal efeito, segundo ela, dá-se por meio da vibração sonora, capaz de alterar o fluxo energético do corpo e colocá-lo em harmonia com a vibração do Universo. Meeta pratica mantras de manhã, no carro, na cozinha, no banho e onde mais puder. Mas com uma diferença: mesmo quando estão fazendo outras atividades enquanto canta, os orientais consideram que os mantras estão sempre em primeiro plano. Os benefícios do exercício, segundo ela, são reais: "Traz confiança em si, garra, serenidade. Quando eu deixo de cantar, até meu intestino pára de funcionar".

Suspirando
Há também uma questão puramente fisiológica: "Não dá para cantar sem respirar", diz Sandra Sofiati, psicoterapeuta de São Paulo. Claro, pois o canto exige pausas diferentes, fôlego extra, controle da saída do ar - detalhes que fazem a respiração ser diversa da que usamos ao falar. Quando cantamos, prestamos atenção nos movimentos e no ritmo do diafragma e do pulmão. Por si só, essa consciência já reduz a ansiedade naquele momento. Em várias correntes de pensamento, seja oriental ou ocidental, nova ou antiga, a respiração desempenha papel fundamental.

Na antroposofia, por exemplo, medicina criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, o sistema respiratório é especial por não ser consciente nem inconsciente. A respiração acontece sem que pensemos a respeito, mas podemos alterá-la a qualquer hora, o que não se faz com os rins ou com o fígado. Steiner acreditava que, por ter essa característica, ela faz uma ponte interna entre o mental e o emocional.

Cada linha de trabalho terapêutico enxerga e usa a respiração no canto de uma maneira particular. Enquanto a antroposofia dá ênfase às pausas, a bioenergética empregada por Sandra e Fabíola aplica exercícios de emissão de vogais longas, até que o fôlego acabe. Dessa maneira, o ar parado no corpo é colocado para fora, auxiliando na desobstrução do fluxo de energia. A bioenergética resgata também sons perdidos no processo de repressão que acompanha nosso desenvolvimento desde a primeira infância: gritos, choro, expressões de raiva. "A liberação sonora funciona para trabalhar o que ficou bloqueado emocionalmente", acredita Sandra.

Foi também com exercícios de canto que a psicóloga paulistana Adelina Rennó conseguiu que crianças asmáticas reduzissem substancialmente o número e a intensidade das crises. Ela usou técnicas da antroposofia, como a repetição de fonemas (por exemplo, o "ng", de "manga", que direcionam a vibração sonora para a cabeça). Daí em diante, o tratamento ganha uma dimensão espiritual, ponto de intersecção entre a antroposofia e a filosofia oriental: ambos acreditam que essa vibração, quando bem direcionada, entra em harmonia com a vibração do Universo, mas isso já é uma outra história. O certo é que, porta para o mundo espiritual ou não, o canto é usado há milênios e nas mais diversas religiões como uma forma de comunicação com o sagrado.

Conjuntando
Em muitos rituais religiosos, aliás, canta-se em conjunto. E a experiência de participar de um coral abre um novo capítulo no universo do canto. É quando uma pessoa começa a ouvir e perceber como sua voz se encaixa com a dos outros, brincando com acordes e dissonâncias, provando arranjos musicais complexos, que só podem ser apreciados plenamente se várias pessoas cantarem unidas. Ser parte de um conjunto de vozes dá a sensação contagiante de integrar um time. Se o goleiro só leva frango, não adianta nada ser um baita atacante. No coral é igual. "As sopranos têm que rezar para os tenores acertarem, ou então a brincadeira não dá certo", diz o regente e compositor Felipe Pipo Grytz. Isso nada mais é que um aprendizado da arte do relacionamento humano. Não por acaso, a terapeuta Adelina Rennó usava o canto coral para ajudar crianças com problemas de adaptação à vida escolar, com excelentes resultados. "Os alunos entravam na aula de um jeito e saíam de outro."

O coral tem outras vantagens: em grupo algumas pessoas encontram a garra que procuram para superar limites e se convencerem de que conseguem cantar, espantando o fantasma da incapacidade. "Ela percebe que não canta tão mal assim, e isso mexe bastante com sua auto-estima", afirma Pipo. Quando se misturam todas as vozes, pequenas desafinações produzem um efeito curioso, que deixa o som ainda mais rico. Aos poucos, a percepção musical se desenvolve e a afinação começa a surgir, naturalmente. O canto se transforma, assim, na afinação do seu instrumento consigo mesmo e com o mundo. João Gilberto que me perdoe, mas, se é verdade que no peito dos desafinados também bate um coração, num peito afinado o coração bate bem melhor.

Para saber mais
A Escola do Desvendar da Voz, Valborg Werbeck-Svärdström, Editora Antroposófica, 2001

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