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O homem que controlava

Criança doente, jovem inventor, homem de fama mundial. Assim foi a vida do criador do método pilates

por Débora Mamber e Mariana Sgarioni | reproduções do livro The Joseph H. P

O alemão Joseph Hubertus era o que podemos chamar de um homem controlado. Seus movimentos eram precisos, quase matemáticos. Queria ter tanto controle de tudo o que fazia que até inventou uma ciência para isso, a contrologia, um programa de exercícios que trabalha corpo e mente ao mesmo tempo, mantendo os dois no mais perfeito equilíbrio. A idéia deu tão certo que hoje em dia milhares de pessoas no mundo inteiro praticam contrologia. Só que a chamam de pilates, que era o sobrenome de seu inventor: Joseph Hubertus Pilates.

Acontece que Joseph não foi sempre esse cara saradão que você vê nas fotos ao longo desta reportagem, divulgando a contrologia. Sua saúde, assunto que, não por acaso, ele perseguiu a vida inteira, era extremamente frágil na infância. Nascido em 1880, numa cidadezinha perto de Düsseldorf, na Alemanha, Joseph era uma criança doente. Sofria de asma crônica, teve raquitismo e terríveis febres reumáticas que, por diversas vezes, impediam os movimentos. Quem o conhecesse não imaginaria que um dia ele seria o dono de uma das mais badaladas academias do mundo, a Pilates Studio, cujas filiais se espalham pelo mundo, inclusive por aqui. Os Pilates Studios alegam ser os únicos herdeiros da contrologia e boa parte da história oficial de Joseph nos é contada por seus representantes.

Diz o site do Pilates Studio que Joseph não se conformava por ter de passar longos períodos sem se mexer e, ainda pequeno, ficou obcecado por superar seus limites físicos. Para ele, ser um garoto saudável tornou-se uma questão de honra, ainda mais para alguém que, como ele, tinha um pai ginasta. Para tanto, fuçou os livros de anatomia que sua mãe lhe havia dado e começou a desenvolver, sozinho, modelos anatômicos de camas e aparelhos que permitissem que ele se exercitasse e, dessa forma, recuperasse a saúde. Sem contar que ele estudava - e muito - filosofia oriental e a civilização grega (que, não por acaso, foi quem começou no Ocidente com a história de mente sã, corpo são). Funcionou. Tanto que, aos 14 anos, ele em nada se parecia com o menino franzino e raquítico de outrora - pelo contrário, tornou-se um verdadeiro esportista, exímio esquiador, ginasta, mergulhador e lutador.

Além disso, incrivelmente, Joseph não ficava mais doente, segundo contam as irmãs americanas Amy Taylor Alpers e Rachel Taylor Segel, seguidoras certificadas do seu método e que hoje possuem uma academia em Colorado. O homem havia virado uma fortaleza. Nem gripe pegava, dizem elas. Os relatos sobre sua saúde chamaram a atenção da Scotland Yard, a polícia federal britânica, que, em 1912, o convidou para ministrar aulas de defesa pessoal aos seus detetives. Assim, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, o alemão Joseph estava na Inglaterra e foi preso.

Para ele, porém, nada melhor do que um ambiente fechado com detentos e feridos para testar seus métodos. Durante sua estadia atrás das grades, Joseph arrebanhou vários seguidores e começou a ensinar seu sistema de exercícios, que compreendia trabalho árduo de todo o corpo com o objetivo de desenvolver, ao mesmo tempo, força, flexibilidade e controle mental. Além disso, ele equipou as camas da enfermaria com molas improvisadas, habilitando pacientes a se exercitarem sem fazer força. Mais tarde aprimorados, esses equipamentos tornaram-se seus revolucionários aparelhos de ginástica que hoje povoam academias do mundo todo.

Ironicamente, foi por causa de uma terrível doença que o saudável Joseph se consagrou. Em 1918, a Inglaterra sofreu uma epidemia de gripe que matou milhares de pessoas. Mas, segundo os relatos do Pilates Studio, nenhum dos seguidores de Joseph adoeceu. Para ele, estava comprovado que seu método de equilíbrio mente e corpo dava certo. Vitorioso, ele resolveu voltar à Alemanha. Seus exercícios haviam ficado famosos por lá, especialmente entre grandes dançarinos da época, como Rudolf von Laban. Convocado pelo governo alemão para ensinar seu método ao Exército, Joseph não aceitou. Segundo as irmãs Taylor, ele estava inconformado com o rumo da política nacional e decidiu deixar seu país de vez.

Em 1923, pegou um navio rumo aos Estados Unidos e, a bordo, conheceu Clara, com quem logo se casaria e fundaria um estúdio em Nova York: o primeiro Pilates Studio. Foi um sucesso. Alunos famosos, como os dançarinos Martha Graham e George Balanchine, tornaram a contrologia conhecida, e logo o próprio Pilates era famoso. Alunos treinados por ele abriram filiais por todo o país e seus exercícios chegaram às estrelas de cinema.

Para imortalizar seu método, Pilates resolveu economizar palavras e esbanjar imagens. Tirou centenas de fotos de si mesmo ano a ano, mostrando seu corpo escultural em posições de extremo controle físico e mental. "Estou 50 anos à frente do meu tempo", dizia. Os dois únicos livros que publicou, cultuados como bíblias por seus seguidores, não são recheados com uma enxurrada de teorias, mas com centenas de fotografias em que ele demonstra os exercícios de sua técnica. Nos raros textos que escreveu, fez questão de deixar claro o quanto abominava os hábitos da vida moderna. Em uma de suas principais obras, O Retorno à Vida, Pilates descreve com firmeza um cenário apocalíptico: o ar que respiramos está saturado de poluição, nossos ouvidos estão sendo bombardeados pelo ruído das cidades grandes, só comemos porcarias e dormimos em camas inadequadas. Das cadeiras às roupas das crianças, nada escapou às críticas desse homem. "Estamos escorregando por um caminho que irá nos levar à destruição da raça humana", afirmava.

O ano era 1934 quando Pilates pegou a caneta para escrever sua sentença: a humanidade estava doente. O jeito para fugir desse caos era praticar a contrologia, ou seja, seu método. "Contrologia é a completa coordenação de corpo, mente e espírito. Ela desenvolve o corpo uniformemente, corrige a postura, ativa a vitalidade física, revigora a mente e eleva o espírito, permitindo o domínio da mente sobre o controle completo do seu corpo", afirma, em O Retorno à Vida.

Nessa época, Pilates chegou a ser diplomado pelo Instituto dos Inventores Americanos, uma vez que criou mais de 20 aparelhos para desenvolver, condicionar e treinar o corpo humano. Metódico, ele desenhava seus equipamentos minuciosamente com medidas exatas, como plantas arquitetônicas. Eram pêndulos com pesos, camas, elásticos circulares e até mesmo geringonças meio esquisitas - mas eficazes - como corretores para os pés. Tudo ficou devidamente fotografado e documentado.

Quando não fotografava a si próprio ou seus desenhos, Pilates gostava de usar uma modelo de demonstração: Romana Kryzanowska, sua ex-aluna. Considerada a sucessora do mestre, Romana vem ao Brasil três vezes por ano para certificar novos professores. Serena e bem-humorada, abandonou o balé e converteu-se à contrologia.

É uma propaganda ambulante da técnica: "Tenho 81 anos e nunca vou ao médico, nem preciso de remédios. Não tomo sequer uma aspirina. Não confio nelas". Seu segredo para driblar as intempéries da idade? Ser capaz de controlar a própria vida, diz ela.

Romana diz que Pilates também controlava seu corpo, sua mente, sua vida. Um mero probleminha de saúde não seria capaz de levá-lo deste mundo. Somente algo que fugisse do seu controle: Joseph morreu aos 86 anos de idade, gozando de incrível forma física, vítima de queimaduras sofridas durante um incêndio em seu estúdio.

Test drive
Pois bem, mas como funciona a contrologia ou pilates? O método pode ser definido como um programa de condicionamento físico e mental no qual o praticante, com ou sem o auxílio de aparelhos, exercita força, flexibilidade e resistência.O primeiro passo para qualquer um dos 500 exercícios desenvolvidos por Joseph Pilates é concentrar a atenção na casa de força, o nome que ele dá para um cinturão formado pela musculatura abdominal, os músculos lombares e os que envolvem a uretra, a bexiga e, no caso das mulheres, os genitais. É essa região que dá suporte ao corpo todo. As posturas sugeridas são inspiradas nos animais e a respiração é integrada ao movimento. Para testar o método, convidamos um professor de yoga, uma fisioterapeuta, uma personal trainer e um sedentário. Veja o que aconteceu:

Pedro Bara, professor de iyengar yoga
Pedro se sentiu em casa. Afinal, Pilates se inspirou no yoga para desenvolver seu método. Começa pela concentração. "Não dá para ligar um walkman e fazer pilates", diz. "Por obrigar você a ficar muito focado, a aula cria um estado meditativo, em que a consciência é trazida para o presente." A atenção para a região abdominal lembra os bandhas do yoga ("trava", em sânscrito). "Concentrando-se nessa região, a pessoa mantém a energia em si", diz Pedro. Mas há diferenças. Pilates pregava o equilíbrio corpo e mente, mas não falava em energia, como os yogues. Natural. Pilates era ocidental, já o yoga nasceu nas entranhas do hinduísmo, onde o objetivo da vida é a conexão com o sagrado.

Ana Paula Vilar, personal trainer e fisiologista
Acostumada a dar aulas individuais, achou interessante o método pilates ter um professor para cada aluno.

"O professor pode dedicar muito mais atenção para o aluno e vai corrigir o movimento até ficar perfeito, o que não acontece sempre numa academia", diz. É verdade que já há aulas em grupo, mas só para exercícios realizados no chão, e os grupos têm no máximo cinco alunos. Mas Ana sentiu falta de exercícios aeróbicos: "O pilates não mantém a freqüência cardíaca alta, portanto não desenvolve a capacidade cardiovascular. É preciso fazer algo para complementar".

Amir Admoni, designer gráfico, sedentário há algum tempo
"Às vezes, eu nem entendia direito aonde a professora queria chegar. Eu tentei ao máximo, mas sei que não fiz tudo certo", afirma. Tudo bem, Amir, a intenção de Pilates não era mesmo facilitar a aula.

Ele queria justamente deixar sua mente bastante ocupada com equações corporais complexas e, dessa forma, evitar qualquer ação automática. "Numa ginástica aeróbica, por exemplo, há tantas repetições que o exercício acaba ficando automático - a pessoa deixa de raciocinar e passa a imitar", afirma Inélia Garcia, professora do Pilates Studio Brasil, em São Paulo. "De todo modo, em apenas uma aula deu para perceber que a minha coluna está torta", diz Amir.

Marjorie Ejzenbaum, fisioterapeuta
Para a fisioterapeuta paranaense, Pilates pode não ser o caminho para todos. Ela acha que há métodos mais eficientes para problemas posturais específicos. "Quem tem escoliose não vai trabalhar mais um lado que o outro com o pilates, o que seria desejável para corrigir o desequilíbrio na coluna." Embora não mire na escoliose ou na lordose do aluno, o alinhamento postural é uma tecla bastante repetida nos exercícios de pilates. Fisioterapia e pilates, portanto, preocupam-se com isso. Mas falam línguas diversas. É como a homeopatia e a alopatia. A primeira, como o pilates, aborda o organismo como um todo. Já a alopatia trata a doença pontualmente. São apenas jeitos diferentes de olhar para o corpo.

Para saber mais
• Return to Life through Contrology, Joseph Pilates
• Your Health: A Corrective System of Exercising that Revolutionizes the Entire Field of Physical Education, Joseph Pilates e Judd Robbins

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