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Onde estamos?

Todo mundo necessita de um abrigo, de um esconderijo. Nossa casa precisa refletir isso

por Marcia Tiburi

Perguntar “onde você está” é tão importante quanto perguntar “quem você é”. É bom aproveitar essa distinção própria da língua portuguesa e rara em outras línguas para filosofar sobre o espaço. A resposta pode ser a mais simples e direta: estou “aqui”. Porém, dizer “aqui” impressiona por causa de seu caráter abstrato.

Ninguém consegue explicar direito o que é “aqui” sem descrever como é o “aqui”, e o que tem à sua volta. Explicar o que é o “lá” ou o “aí” onde o outro se encontra só é possível a partir das notícias do que pode estar acontecendo. O aqui ou aí é sempre um lugar construído. Depende do que encontramos nele para explicá-lo. Depende da interpretação de cada um. Ou seja, da capacidade de revelar uma experiência. A experiência, porém, depende da capacidade de contar o que se viu, se ouviu ou se pensou. O lugar enquanto tal não existe. Precisamos do nosso imaginário para construí-lo. Isso explica por que nossas casas, nossa cidade e nosso país são tão importantes para nós. Mas nem sempre. Podemos ser totalmente desatentos ao lugar onde vivemos.

A arquitetura é a arte do lugar. Surgiu para elaborar a experiência que temos com o espaço. Não é apenas a construção dos prédios, a escolha de sua estética, do estilo das casas e das cidades que mudam com o tempo. Não é apenas design, elaboração da aparência, mas a arte que nos mostra o que significa habitar um lugar.

Vivemos em tempos em que cada metro quadrado vale muito, em que as distâncias entre trabalho e casa tornam-se problema cotidiano. Só a arte pode nos ajudar a entender onde vivemos e por que vivemos como vivemos.

A caverna de Platão

Por isso, a alegoria da caverna de Platão, sobre a qual trata o livro 7 de uma das mais importantes obras desse filósofo, a República, é ainda relevante hoje. Muitos conhecem o texto como uma interpretação da lucidez dos filósofos contra a ignorância dos que não pensam e permanecem a crer nas sombras dentro da caverna. Essa é uma interpretação correta, mas podemos ir além. A caverna da alegoria é uma habitação. As pessoas vivem ali cegas do que se passa ao seu redor. Não têm experiência do que vivem e por isso podemos dizer que não habitam. Olham as sombras projetadas no fundo da caverna como se fossem as coisas reais. Para elas tanto faz o que acontece.

Quando Platão desenvolve essa narrativa, seu interesse é dizer que as idéias, não as coisas, é que são verdadeiras; que há algo mais verdadeiro além do mundo que a visão alcança. Hoje em dia podemos resumir a idéia de Platão à desatenção que temos pelo mundo que nos cerca.

Pensar e morar

Platão escreveu a República pensando numa utopia, na organização perfeita de uma cidade. A casa estava dentro dela e não deveria ser uma caverna. As pessoas teriam de ter paciência para sair dela.

Hoje, porém, a caverna, que para Platão era uma metáfora, tornou-se também real. Sair da caverna hoje significa enfrentar a verdade da rua. Perceber o quanto nossa casa, nosso modo de morar é o resultado do que nos oferece a sociedade. Nossa casa é o resultado da vida comum, do que entendemos que é a rua hoje. Apartamentos pequenos com cômodos onde apenas um pode entrar, muros altos, grades protetoras. Um dos aspectos mais significativos é o tamanho minúsculo das janelas dos apartamentos em prédios novos. Grandes vidraças ou sacadas são um luxo em um tempo em que ver a rua, a cidade com suas luzes e sombras, se tornou acessível a poucos. Ver é um luxo. Como posso entrar em casa e perceber que o mundo que está lá fora também me pertence? Que o que está fora de casa faz parte de minha casa, se sempre aparece separado do que eu vivo? Onde está a arquitetura que deveria nos ajudar a habitar o lugar onde vivemos?

Minha casa

Espaço é um luxo tão grande quanto o tempo. O espaço é a dimensão do corpo e da relação entre os corpos que nos permite ter sensação de aproximação e distância. A distância é o lugar onde não podemos habitar. É a rigor um não-lugar? Nosso mundo está cheio dela. Por isso, vivemos sem lugar e encontrar um traz a sensação de completude.

Todos os seres, animais e humanos, precisam de abrigo, esconderijo, descanso, conforto. Uma casa significa tudo isso. Mas podemos morar nela sem habitá-la. É o que acontece conosco quando desistimos de pensar no Universo, no planeta Terra, no continente, no país, na sociedade, na cidade, no bairro, na comunidade. Nosso lar é onde aprendemos o que é habitar. Nele a aproximação deve estar acima da distância.

Nossa casa mais próxima, a das quatro paredes ao nosso redor, pode se tornar uma caverna como a de Platão. Lugar onde nos escondemos e aos nossos tesouros, lugar sem relação com o mundo fora dele. A caverna é uma crença que deveríamos tentar desmistificar quando a tendência é que as casas se transformem em cavernas. Que a distância supere a aproximação. Nosso mundo será bárbaro se isso acontecer. Hoje, enquanto o espaço diminui, a distância entre nós aumenta. Saber da distância é o único jeito de ser maior do que ela.

Marcia Tiburi é filósofa, escritora e artista plástica. Integra o programa Saia Justa, do canal de TV a cabo GNT.filosofia@abril.com.br

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