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Antigamente se usava a frase “nunca se sabe o dia de amanhã”. É curioso como essa expressão sumiu de nossas conversas e, desse modo, do imaginário coletivo sempre expresso nos temas cotidianos. O “dia de amanhã” era o jeito de falar sobre algo concreto, mas sobre o qual nada se sabia. O “dia de amanhã” era mais do que o dia que vem depois do “dia de hoje”. Era o cuidado com o tempo vindouro.
O "dia de amanhã” representava um conceito de futuro de que não dispomos mais desde que acreditamos no progresso tecnológico e do capital. Com ele definia-se a esfera da vida do que chamamos “porvir”: o que ocorrerá. No passado as pessoas acreditavam que era preciso uma preparação para esse tempo com comportamentos e ações que levassem a bons resultados. O futuro dependia da sorte, mas também do projeto. A relação com o futuro definia a construção de algo que seria importante “um dia”. Tal pensamento era possível porque havia uma perspectiva no sentido técnico: um olhar que partia de um ponto e queria alcançar outro. Hoje, podemos questionar se não perdemos justamente o ponto ao qual queremos chegar. Perguntar “aonde queremos chegar” com a vida que levamos hoje faz parte do desejo de uma vida justa.
O futuro era algo para o qual era preciso preparação: para o casamento, o trabalho, a vida social. A educação, antes de ser disciplina do corpo e do espírito, era preparação para tudo isso. Hoje, ninguém pensa em se preparar. Antes da preparação, privilegia-se hoje a competição geral para alcançar um lugar, se possível o primeiro. O motivo da corrida de onde vem nossa “correria” cotidiana é, porém, incerto para cada corredor.
O futuro, espécie de idéia concreta, nos escapa quando surge a idéia abstrata do progresso. O ideal do progresso não apenas substituiu a percepção do futuro, mas reprimiu sua potencialidade. Sem pensar no futuro, aderimos cegamente à decadência do progresso sem perceber sua contradição: que dele também surja miséria e violência. A idéia de progresso nos dá um lucro psicológico maior, por isso abandonamos o pensamento sobre o futuro. Desistimos dele acreditando que, com o progresso, superamos todo o mal que pode nos ocorrer no futuro.
O futuro virou uma projeção fantasmagórica, como vemos nos filmes de ficção científica que brincam com nosso imaginário sobre o tempo que virá. É um jeito ingênuo de dominar o medo do futuro. A tecnologia que nos faz superar a decadência física e a doença mostra que podemos ser superiores ao que no futuro é um dado certo: a morte. A crença de que seremos superiores a ela é vendida com o mito do progresso. Promessa comprada e, necessariamente, jamais cumprida.
Ao longo dos tempos muitos sonharam com o futuro como ideal de uma vida perfeita. Na qual toda miséria desapareceria sob a ordem construída como plenitude material e espiritual. Chamaram u-topia ao que “não tem lugar”, o mundo de sonho que não poderia ser encontrado em lugar e tempo conhecidos. Na cultura judaico-cristã, o mito de uma utopia passada, o paraíso perdido onde Adão e Eva viveriam em paz com a natureza e consigo mesmos, definia o desejo de uma vida sem conflito. Platão, na República, desenhara o mesmo desejo de uma sociedade baseada na vida justa. Thomas More, que cunhou o termo, escreveu sua Utopia pensando na ausência de violência. E, no século 19, enquanto Charles Fourier imaginava uma utopia de prazeres físicos, Karl Marx defendia que a evolução da história levaria a uma inversão do poder para favorecer os dominados. Ernst Bloch, pensador judeu-alemão que morreu em 1977, pensava a utopia como uma espécie de sonho diurno que modela a vida social, o sentido do que nos aguarda. Enquanto aqueles definiam suas utopias como mapas no qual se sabe o local certo do tesouro, Bloch pensava o futuro como abertura para o novo, como quando se ama um filho que nasce para a felicidade independentemente de seus dotes intelectuais ou estéticos.
Antonio Vieira, no século 17, escreveu uma curiosa História do Futuro. Nela o futuro é matéria de profecia. E toda profecia é mais que promessa, é julgamento sobre o que virá. Importa menos a realização de sua profecia sobre as glórias de Portugal que o conceito de futuro como tempo que está além da esperança. Futuro é o que ocorrerá em função do que se constrói no presente. A profecia diz respeito a uma aposta que se faz sobre o incerto, sustentando que há algo de certo no incerto. O futuro é lampejo do que projetamos.
Depois da Segunda Guerra, um filósofo japonês chamado Nishitani falou de uma “vontade voltada para o futuro” que deveria orientar nossa relação com o presente partindo do passado. Hoje é necessário perguntar o que sabemos do futuro. Diante da crise com a natureza, diante da miséria e da violência crescentes, será que não seria justo voltarmos a pensar no dia de amanhã que todos iremos partilhar? Basta olhar para o passado e o presente para imaginar o certo no incerto.
Marcia Tiburi é filósofa, escritora e artista plástica. Integra o programa Saia Justa, do canal de TV a cabo GNT. filosofia@abril.com.br
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