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Ai, que inveja! Essa é a frase que mais escuto depois que resolvi viver mais perto da minha família e longe da cidade grande. Passei dois anos vivendo a bordo do veleiro Santa Paz, e depois que Júlia, minha segunda menina, nasceu, nos estabelecemos em Paraty, onde estamos há poucos meses.
Inveja não agrada a ninguém, nem quando dizem que é da boa, que não acredito que exista. Incomodada, me pus a pensar no assunto. Fiz uma escolha, troquei um bom salário e a segurança de um emprego fixo por ar puro e tempo com minhas filhas. Isso implica uma vida mais simples, menos opções profissionais e viver a duas horas da sala de cinema mais próxima. Mas e daí? Foi isso que escolhi, sabia das limitações quando vim e acredito que se não estiver feliz posso mudar outra vez.
Por que eu pude fazer isso e quem está com dor-de-cotovelo não? A dúvida foi tema de uma conversa que tive com um casal espanhol que deixou a vida convencional há três anos. Montserrat e Eduardo partiram de Barcelona a bordo de um veleiro de 34 pés e vivem com Arnaud, um bebê de 7 meses, pertinho da gente aqui em Paraty. A cada seis meses eles voltam à Espanha, onde trabalham durante a temporada para juntar dinheiro e seguir viajando.
Eduardo acredita que a maior parte das pessoas não sabe que pode escolher. Nunca ouviram falar de alguém que não esteja preso à hipoteca da casa própria e ao financiamento do carro. Acontece que nunca houve tanta liberdade de movimento quanto nos dias de hoje, mas as pessoas seguem presas aos lugares onde vivem. Quando viajam, o fazem em excursões que visitam sete cidades em cinco dias.
Acredito que não é sorte o que permite que vivamos em uma cidade pequena, próximos à natureza e com qualidade de vida.Acho que isso é resultado de sabermos que podemos escolher e da clareza do que implicam estas escolhas. Outro dia abri o jornal e havia uma matéria sobre spas. O título era algo como “Lugares para se esquecer da vida”. Aquilo me cutucou. Por que precisamos esquecer? Será que não é o caso de transformar?
Nos portos por onde passamos, fizemos amigos que vivem bem gastando o mínimo. Penso que mesmo quem tem pouco dinheiro pode buscar um caminho em lugares menores, com um ritmo mais condizente com a tranqüilidade. O desafio é planejar o que é necessário para fazer essa mudança e bancar os riscos da escolha. Sim, sempre há riscos. Mas do que vale viver conformado e infeliz? Em geral nos sacrificamos em nome dos que amamos.Continuo aqui neste trabalho que não gosto para sustentar meus filhos, é o que mais escuto. O que ninguém pensa é que está ensinando aos pequenos a não buscar seus sonhos, a conformar-se com a infelicidade. Esse não é o exemplo para se dar às crianças.
Agora, é preciso escolher, sair da frente da TV, deixar a vida dos participantes do Big Brother para lá e cuidar do próprio caminho. A sorte é bem-vinda e, se tudo der certo, ótimo. Mas só sorte não muda a vida de ninguém.
Sandra Chemin, publicitária e consultora, aprende todo dia a bancar suas escolhas. www.santapaz.com e semdestino@abril.com.br
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